Malalaï Joya fala sobre a realidade do Afaganistão, e as mentiras da invasão norte-americana
Malalaï Joya, 31, ex-membro do Parlamento afegão expulsa do cargo por denunciar os senhores da guerra (líderes tribais locais), "uma máfia no poder", como ela diz, concedeu de Cabul franca entrevista por telefone e correio eletrônico ao sítio brasileiro O Tempo, pessoalmente à jornalista Renata Medeiros. Ela respondeu a todas as questões muito oportuna e corajosamente, contando sobre sua vida e lutas, revelando também a catastrófica realidade do Afeganistão. Apresentou inclusive denúncias sobre as reais intenções e genocidas ações dos Estados Unidos dentro do país e suas "marionetes", que, segundo ela, são os senhores da guerra e os próprios Talibans, mostrando por que é mundialmente conhecida como "A Mulher mais Corajosa do Afeganistão" - ou como mencionou Sonali Kolhatar, da rádio de Los Angeles e autora de "Bleeding Afghanistan: Washington, Warlords, and the Propaganda of Silence" (Sangrento Afeganistão: Washington, Senhores da Guerra e a Propaganda do Silêncio), citado por Jake Towne em A Salute to Malalaï Joya: "Mulheres como Malalaï Joya são inconvenientes à administração Bush".
Contudo, a publicação de Renata em 14 de junho fez até mesmo aqueles que conhecem só um pouco de Malalaï Joya arregalar os olhos estranhamente: ela começa com um breve artigo ligando astutamente "cacos" das afirmações de Joya a um ponto de vista que a afegã não possui, em absoluto.
Depois disso, vem uma "minientrevista" jamais concedida por Joya. Em tal piada de entrevista, Renata não apenas cortou as respostas, escolhendo cuidadosamente apenas algumas partes e omitindo outras, juntando diferentes perguntas transformando, assim, o ponto de vista de Joya muito vago, como a "jornalista" também criou, isso mesmo, criou perguntas nunca feitas por ela mesma.
Malalaï Joya, que só trafega pelo Afeganistão escoltada por 12 seguranças fortemente armados (veja impressionante foto), escondida em uma burca dentro de um táxi, e nunca dorme duas noites na mesma casa, enviou-nos, através de seu Comitê de Defesa (CD) em Cabul, a entrevista original que concedeu para O Tempo no Brasil, os quais expomos aqui.
De acordo com Joya e seu CD, tal fato é muito estranho já que eles receberam do Brasil algumas ligações, e Renata parecia muito interessada no material: "Ela ligou para Joya várias vezes, e mandou-nos muitos correios eletrônicos, solicitando as respostas. Ela estipulou um tempo muito curto para que Joya respondesse às questões, e Joya fez isso com máxima urgência, de maneira que não sabemos por que ela cortou tudo" (CD de Malalaï Joya).
Mas eles sabem tão bem quanto nós o que há de "estranho" neste último e escandaloso capítulo da piada de Guerra ao Terror que apresentamos aqui, uma clara evidência de que, para o jogo atrás de interesses regionais e econômicos, a imprensa mundial está realmente de joelhos, mendigando as migalhas do Império. (...)
Contatos entre Renata Medeiros e Malalaï Joya
---------- Forwarded message ----------
From: Defense Committee for Malalai Joya mj@malalaijoya.com
Date: Fri, May 29, 2009 at 12:33 AM
Subject: Re: Interview (brazilian newspaper)
To: Renata Medeiros (...) @ (e-mail)
Querida Renata,
Aqui vão as respostas para todas as perguntas (anexadas)
Espero não ser tarde demais. Por favor, confirme seu recebimento.
Considerações,
CDMJ
(Anexo)
Desculpe-me por ter tomado tanto tempo para responder suas perguntas, e espero que as respostas sejam satisfatórias e não sejam muito longas.
Como respondi às questões com pressa, perdoe-me por erros gramaticais e repetições de observações em minhas respostas.
Por favor, me diga se você tem mais perguntas,se você tem mais pontos a ser explicados.
Seria melhor você me escrever correio eletrônico, já que por telefone não é sempre fácil de se entender.
Muito respeito,
Malalaï Joya
(...)
Entrevista Original Abaixo
(...)
7) Como é a vida das pessoas no Afeganistão? Quais são os maiores problemas do país?
Cada área da vida do Afeganistão hoje é uma tragédia total, desde os direitos das mulheres à segurança, lei e ordem, economia, e dominação da máfia das drogas. As mulheres, em especial, são as que mais sofrem devido à inexistência da justiça.
Descreverei algumas estatísticas:
● Mais de 95% das mulheres afegãs sofrem de depressão;
● A cada 28 minutos, morre uma mulher durante o parto;
● A expectativa de vida das mulheres afegãs é de apenas 44 anos;
● 70% dos afegãos - cerca de 18 milhões de pessoas - sofrem de insegurança alimentar aguda;
● Apenas 2% do povo afegão têm acesso à eletrecidade;
● O Afeganistão ainda é o 175º entre 177 países no Índice de Desenvolvimento Econômico;
● A taxa oficial de desemprego está acima de 40%;
● O Afeganistão posiciona-se como um dos países mais corruptos do mundo na Transparência Internacional;
● 60% dos afegãos disseram ao Observatório da Integridade do Afeganistão em 2007, que o governo do presidente Karzai é mais corrupto que o do Taliban, dos mujahedeen ou dos regimes comunistas;
● No Afeganistão, 1600 mulheres morrem de complicações em cada 100 mil partos, um um dos piores índices do mundo;
● De cada mil recém-nascidos, 128 não viverão mais que 1 ano;
● 60% das famílias pesquisadas afirmaram que quase metade de seus filhos menores de idade estavam envolvidos em algum tipo de trabalho;
● O Afeganistão tem cerca de 800 mil pessoas deficientes;
● Mais de 70% das mulheres não recebem atendimento médico durante a gravidez. 40% não têm acesso ao atendimento de emergência obstetrícia;
● Cerca de 92% dos estimados 26,6 milhões de pessoas do Afeganistão, não têm acesso aos serviços sanitários;
● Entre os 169 países no Índice da Libardade de Imprensa no Mundo, informado pelos Repórteres sem Fronteira, o Afeganistão situa-se em 142º lugar;
● De acordo com a UNIFEM, 65% das 50 mil viúvas em Cabul veem o suicídio como a única opção para se livrar de sua miséria e sofrimento;
● Mais de 8.500 civis afegãos - a maioria mulheres e crianças - têm sido mortos pelas forças dos EUA / OTAN.
A ocupação, as leis dos senhores da guerra, uma máfia da droga, a insurgência do Taliban, a terrível corrupção, severa pobreza, inexistência da lei etc, são alguns dos maiores problemas que os afegãos enfrentam hoje.
9) Em seu país, quais as consequências da guerra que começou em 2001? Como ela afetou a economia, a política e a vida social do Afeganistão?
Os EUA e seus aliados usaram muitas mulheres afegãs como desculpa para legitimar a ocupação do Afeganistão, e "trazer liberdade às mulheres afegãs". Logo depois da derrubada do Taliban, o sr. Bush anunciou que "as mulheres afegãs são livres agora".
Mas isso é simplesmente uma mentira, e tapar os olhos das pessoas em todo o mundo. Na realidade, as condições das mulheres afegãs não mudaram para melhor, mas elas sofrem mais que nunca.
A máfia da droga detém o poder e é apoiada pelo Ocidente. Poucos dias atrás, o ministro de Moradia do Afeganistão, sr. Yousif Pashtun, anunciou que 4 milhões de hectares têm sido ocupados pelos homens poderosos, e eles não podem fazer nada já que a máfia está envolvida nisso, e ele nomeou Qasim Fahim (um senhor da guerra selvagem, que recentemente foi nomeado por Karzai como seu vice-presidente para a próxima eleição) como líder da terra da máfia.
As poderosas instituições imperialistas, tais como IMF, Banco Mundial, OMS [Organização Mundial de Comércio] e outras, têm sinal verde no Afeganistão, e elas estão levando a economia do país ao rumo que bem entendem. Privatização dos recursos governamentais e pilhagem dos recursos naturais produzem consequências devastadoras ao pobre povo afegão. Enquanto mais de 80% das pessoas não têm o suficiente para comer, uma pequena minoria boceja em cima do país inteiro, e enchem seus bolsos com bilhões de dólares, e pilham as riquezas do país, e também roubam o que vem da ajuda estrangeira.
Em nome da "democracia", muitas piadas são feitas com nosso povo. Aparentemente, temos um presidente "eleito democraticamente", parlamento "democrático" e constituição "democrática", mas na verdade até mesmo as crianças afegãs sabem que essas eleições foram exibições nojentas e cheias de fraude, intimidação e os resultados não foram decididos pelo voto das pessoas, mas de acordo com os senhores da guerra e com as decisões de seus superiores ocidentais da Casa Branca.
Enquanto o Ocidente apoia os inimigos dos afegãos, organizações pró-democracia e progressistas, bem como pessoas, estão sob constante pressão e não são apoiados por ninguém. Os EUA e seus fantoches afegãos estão tentando parar a ascensão da massa pró-democracia e movimentos progressistas, enquanto única alternativa para mobilizar o povo afegão e para trabalhar por um Afeganistão independente, democrático e secular. Só esse grupo pode resgatar o Afeganistão do desastre atual.
O povo afegão está profundamente pesaroso com essa situação, e à beira de se levantar contra tudo isso.
Entrevista concedida (e não publicada) por Malalaï Joya ao sítio do jornal brasileiro O Tempo
Confira matéria de Edu Montesanti com exposição da entrevista publicada, e da original ocultada pelo jornal enviada a nós com exclusividade por Joya
Em Por Trás das Cortinas da Mídia Internacional, na Terceira Página