É preciso matar sua coragem
até que reste apenas covardia.
É preciso matar o herói-miragem
até que reste apenas vilania.
É preciso matar sua beleza
até que reste apenas feiúra.
E até que reste apenas frieza
é preciso matar sua ternura,
é preciso matar sua piedade.
É preciso matar-lhe o aroma e a flor,
até que reste apenas crueldade,
até que reste apenas seu fedor.
É preciso matar sua memória
até que reste apenas sua escória.
We must kill him. 0, we gotta kill him
anywhere, elsewhere, everywhere.
Ô gunfighters do mundo, dai um fim à tão sinistra luz,
a luz esquerda que assombra e, sem medo, engatilhai
Macintoshes, mirai, usai Windows - ó épicos satélites,
Rastreai o olhar campeador (o mais ruim dos)
e os passos que não passam -, com o florete
da palavra mais livre e seus repiques
em googles e youtubes, na Internet,
por CNNs e times e newsweeks,
deletai as três letras que empeçonham
os sonhos desses loucos que ainda sonham.
Qué sé yo de Ia muerte? No sé nada. De Ia vida sabré tal vez un poco,
de hambre y hombres, de lucha apasionada.
De morir sí, lo sé, tránsito loco
entre dos tiros, dos tinieblas, dos
punzones en el pecho sin dolor,
o entre vida y no vida, no más, los ojos como entornados
y el rigor final de los juicios que te alaban
o te destruyen. Y os díré: morir
es solo un trámíte, todos se acaban
aunque paguen el precio de vivir
por Ia causa dei Hombre o, así lo quieras,
del odio, sus pasiones, sus banderas.
Trechos do poema A "Segunda Morte de Che", de Pedro Galvão, publicitário. Escrito por ocasião dos 40 anos da morte de Che Guevara, quando algumas revistas do mundo publicaram matérias infamantes, algumas delas repulsivas, com o intuito de destruir a imagem do herói. Publicada pela revista brasileira Caros Amigos, edição especial de novembro de 2008, A América Latina Está Viva
EM TRECHOS SELECIONADOS DE SUAS RECORDAÇÕES DE COMBATE, CHE GUEVARA NARRA A CAMPANHA GUERRILHEIRA EM CUBA QUE O REVELOU PARA O MUNDO, DERRUBOU O DITADOR FULGENCIO BATISTA E IMPLANTOU O REGIME SOCIALISTA NO PAÍS
Revista Caros Amigos, outubro de 2004. Especial Che Guevara
“NO DIA 2 DE DEZEMBRO desembarcamos em Cuba, num lugar chamado Belic, na praia das Colosadas. Fomos denunciados. Desembarcamos com toda pressa, com a aviação inimiga perseguindo-nos alagadiços adentro. Nem bem havíamos chegado, o exército da ditadura já estava em nosso encalço. Finalmente, depois de uma marcha exaustiva, chegamos a um posto chamado Alegría del Pío, na província de santa Cruz, município de Niquero, perto do Cabo Cruz.
Havíamos perdido quase todo o nosso armamento no desastroso desembaque, bem como o arsenal médico e os alimentos. Um guia, camponês da região, nos traiu, entregando-nos aos soldados de Batista. Exaustos, mal podíamos caminhar. Começamos a ouvir o barulho de aviões sobrevoando a região. Todos os nossos homens tinham os pés feridos pela caminhada e eu sofria muito com seguidas crises de asma. Subitamente, fomos atacados. Tiros de todos os lados. Um deles me atingiu. Pensei que iria morrer. Vi cenas dramáticas com meus companheiros feridos. Precisávamos sair dali e atingir o outro lado do canavial, onde deveria estar Fidel com outra tropa.
Foi um esforço terrível, escapando das balas. Caminhamos até que a noite nos impediu de avançar e resolvemos dormir todos juntos, amontoados, atacados pelos mosquitos, sofrendo pela sede e pela fome. Esse foi nosso batismo de fogo no dia 5 de dezembro de 1956. Assim começou a forjar-se o exército rebelde.
De noite, saímos caminhando na montanha guiados pela estrela polar. Orientávamo-nos para o leste, em direção à Sierra Maestra. Encontramos três companheiros numa pequena praia (Camilo Cienfuegos, Pancho Gonzáles e Pablo Hurtado). Com eles, éramos oito, não tínhamos notícias de mais sobreviventes. Tudo o que sabíamos era que, caminhando com o mar à nossa direita, íamos para o leste, isto é, para Sierra Maestra, o lugar onde devíamos nos refugiar.
Depois de passar dias de muita fome e sede, acabamos por encontrar camponeses que nos alimentaram, mas depois nos denunciaram. Outros tornaram-se fiéis companheiros e mais tarde se incorporaram ao nosso partido. Por fim, um camponês disse-nos saber onde encontrar Fidel. Nossa pequena tropa apresentava-se sem uniformes e sem armamentos, já que as duas pistolas eram tudo o que tínhamos conseguido salvar do desastre. A reprimenda de Fidel foi muito violenta: 'Vocês não pagaram a falta que cometeram, porque abandonar fuzis, nessas circunstâncias, só se paga com a vida. Aúnica esperança de sobreviver que tinham no caso de se defrontar com o exército eram suas armas. Abandoná-las foi um crime e uma estupidez'.
O ataque a um pequeno quartel situado na foz do rio La Plata, na Sierra Maestra, constituiu nossa primeira vitória e alcançou certa repercussão. Foi a prova de que o exército rebelde existia e estava disposto a lutar; e, para nós, a reafirmação das nossas possibilidades de triunfo final. Isso ocorreu no dia 14 de janeiro de 1957, pouco mais de um mês depois da surpresa em Alegría del Pío.
Nossa atitude para com os feridos contrastava sempre com a do exército, que não somente assassinava os nossos feridos, como também abandonavam os seus. Essa diferença surtiu efeito com o tempo e se constituiu num dos fatores do triunfo.
Seguindo pelas encostas dos morros que bordejam o rio Inferno, chegamos a uma pequena abertura circular na montanha onde existiam duas choças camponesas. Fizemos ali nosso acampamento. Fidel cuidou de nossas defesas. Mas, na madrugada do dia 22, alguns soldados invadiram o nosso espaço e trocamos tiros. O combate foi de uma ferocidade extraordinária. Morreram quatro inimigos.
Escapamos de mais um violento ataque dos aviões de Batista e acabamos escondendo-nos na mata. Logo estaremos completando,no dia 2 de fevereiro, dois meses do desembarque do Granma.
Nos dias 27 e 28 de fevereiro, implantou-se a censura em todo o país. Pelas 4 horas da tarde, uma numerosa tropa de soldados, sem saber de nossa presença (num vale próximo a La Marcedas), caminhava nessa direção. Tivemos de fugir correndo. Mas eu estava tendo um forte ataque de asma. Todos escaparam, mas, para mim, foi muito difícil e doloroso. Crespo me dizia: 'Argentino de merda, tens de caminhar ou te levo a coronhadas'.
Tínhamos um encontro marcado com Fidel na casa de Epifanio, caminho que poderia ter sido feito em 24 horas, mas não conseguimos. O encontro era em 5 de março, mas só chegamos lá no dia 11, em razão das minhas dificuldades. No dia 16 chegaram 50 homens de reforço, com algum armamento, mas todos despreparados para as marchas.
Com cerca de 80 homens, os rebeldes se dividiram em três grupos, sob a direção geral de Fidel. Eu tinha a função de médico num deles. A primeira quinzena de maio foi de marcha contínua. Estávamos na crista de Sierra Maestra, próximos do pico Turquino.
Depois de longa espera, recebemos mais armamentos. A 31 de maio tínhamos 127 homens, na maioria armados. Preparamo-nos, então, por decisão de Fidel, para tornar o quartel El Uvero, à beira-mar. Esse combate foi um dos mais sangrentos que travamos. A luta durou 2 horas e 45 minutos. Do nosso lado, morreram seis companheiros. E muitos feridos, sendo 19 de combate. Entre os governistas, 19 feridos, 14 mortos, 14 prisioneiros. Um tenente, depois de atingido, levantou a bandeira branca da rendição. A partir desse combate, nosso moral aumentou enormemente. A coluna vitoriosa partiu no dia seguinte e eu permaneci no quartel, cuidando dos feridos.
Em 12 de julho de 1957, surgiu um manifesto de apoio à luta guerrilheira e propondo a nova ordem política para Cuba. Foi publicado nos jornais. Essa declaração, para nós, não era mais que uma pequena pausa no caminho. Cumpria continuar a tarefa fundamental, que era a de derrotar no campo de batalha o exército opressor.
Naqueles dias, formava-se uma nova coluna cuja direção era entregue a mim, com o posto de capitão. A nomeação foi muito simples. Ao escrever os nomes que iam fazer parte da coluna, na hora de especificar o meu posto, Fidel ordenou: 'Põe comandante'. Desse modo informal e quase disfarçado,fui nomeado comandante da Segunda Coluna do Exército Guerrilheiro, que posteriormente se chamava Número 4.
No dia 31 de julho, fizemos o ataque ao quartel Bueycito, comandado por mim. Seguimos em caminhões conseguidos com os camponeses que nos apoiavam. Houve um tiroteio rápido, no qual perdemos o companheiro Pedro Rivero, com um tiro no peito. E mais alguns outros,com ferimentos leves. Queimamos o quartel, depois de tirar tudo o que podia ser útil, e fomos nos caminhões, levando prisioneiro o sargento.
Com o assassinato de Frank País (famoso líder estudantil da universidade de Santiago ligado ao Movimento Revolucionário de Cuba), numa rua de Santiago, perdemos um dos mais valiosos lutadores, mas a reação a seu assassinato, com uma greve espontânea em toda Cuba, demonstrou que novas forças se incorporavam à luta e que crescia o espírito combativo do povo.
Tanto a nossa coluna quanto a de Fidel realizavam pequenas façanhas militares que, no entanto, eram grandes, pela desproporção de forças que existia entre nossos soldados, pobremente armados, e as forças perfeitamente armadas da repressão. Mais ou menos a partir desse momento foi que as tropas de Batista deixaram definitivamente Sierra Maestra.
Enquanto Fidel prosseguia a marcha para Santiago, chegamos a Pino del Água, no dia 10 de setembro, na mata da Maestra. Ali realizamos uma emboscada, onde caíram três caminhões com soldados e armamentos. A maioria dos soldados fugiu, mas nos deixaram as armas. Queimamos os três caminhões, pois não pretendíamos utilizá-los. Travamos mais alguns combates com os soldados de Batista na região, num dos quais me feriram no pé. Pareceu-nos, depois, que o inimigo se afastara dali.
Vencida a batalha em Sierra Maestra no dia 30 de dezembro de 1958, com 400 homens invadimos Santa Clara, defendida por 3 mil soldados da ditadura. Foi o golpe mortal contra Batista, que fugiu de Cuba em janeiro de 1958, na madrugada do Ano Novo.
Nesse mesmo mês de janeiro, separei-me de Hilda Gadea e pouco depois casei-me com Aleida March, que lutara a meu lado nos últimos meses da guerrilha. Após a tomada do poder, a 8 de janeiro, parti para uma longa viagem diplomática.
Em novembro, foi nomeado presidente do Banco Nacional de Cuba. No dia 17 de abril, o novo regime cubano frustrou o desembarque, na baía dos Porcos, de cubanos dirigidos e armados pelos Estados Unidos.
Ocupei outros cargos importantes no governo revolucionário presidido por Fidel Castro. Em fins de 1964 precisei discordar da linha internacional do Partido Comunista Soviético, que dava apoio financeiro à Cuba, posição que Fidel não pôde compartilhar. Foi quando decidimos que eu continuaria a minha vida de guerrilheiro internacionalista e Fidel seguiria administrando a vida política da Ilha”.
João Pedro Stedile, jornal Brasil de Fato
8 de outubro de 2009
Em 8 de outubro cumpre-se o aniversário do assassinato de Che Guevara pelo exército boliviano. Após sua prisão, em 8 de outubro de 1967, foi executado friamente, por ordens da CIA. Seria ''muito perigoso'' mantê-lo vivo, pois poderia gerar ainda mais revoltas populares em todo o continente.
Decididamente, a contribuição de Che, por suas idéias e exemplo, não se resume a teses de estratégias militares ou de tomada de poder político. Nem devemos vê-lo como um super-homem que defendia todos os injustiçados e tampouco exorcizá-lo, reduzindo-o a um mito.
Analisando sua obra falada, escrita e vivida, podemos identificar em toda a trajetória um profundo humanismo. O ser humano era o centro de todas as suas preocupações. Isso pode-se ver no jovem Che, retratado de forma brilhante por Walter Salles no filme Diários de Motocicleta, até seus últimos dias nas montanhas da Bolívia, com o cuidado que tinha com seus companheiros de guerrilha.
A indignação contra qualquer injustiça social, em qualquer parte do mundo, escreveu ele a uma parente distante, seria o que mais o motivava a lutar. O espírito de sacrifício, não medindo esforços em quaisquer circunstâncias, não se resumiu às ações militares, mas também e sobretudo no exemplo prático. Mesmo como ministro de Estado, dirigente da Revolução Cubana, fazia trabalho solidário na construção de moradias populares, no corte da cana, como um cidadão comum.
Che praticou como ninguém a máxima de ser o primeiro no trabalho e o último no lazer. Defendia com suas teses e prática o princípio de que os problemas do povo somente se resolveriam se todo o povo se envolvesse, com trabalho e dedicação. Ou seja, uma revolução social se caracterizava fundamentalmente pelo fato de o povo assumir seu próprio destino, participar de todas as decisões políticas da sociedade.
Sempre defendeu a integração completa dos dirigentes com a população. Evitando populismos demagógicos. E assim mesclava a força das massas organizadas com o papel dos dirigentes, dos militantes, praticando aquilo que Gramsci já havia discorrido como a função do intelectual orgânico coletivo.
Teve uma vida simples e despojada. Nunca se apegou a bens materiais. Denunciava o fetiche do consumismo, defendia com ardor a necessidade de elevar permanentemente o nível de conhecimento e de cultura de todo o povo. Por isso, Cuba foi o primeiro país a eliminar o analfabetismo e, na América Latina, a alcançar o maior índice de ensino superior. O conhecimento e a cultura eram para ele os principais valores e bens a serem cultivados. Daí também, dentro do processo revolucionário cubano, era quem mais ajudava a organizar a formação de militantes e quadros. Uma formação não apenas baseada em cursinhos de teoria clássica, mas mesclando sempre a teoria com a necessária prática cotidiana.
Acreditar no Che, reverenciar o Che hoje é acima de tudo cultivar esses valores da prática revolucionária que ele nos deixou como legado.
A burguesia queria matar o Che. Levou seu corpo, mas imortalizou seu exemplo. Che vive! Viva o Che!
João Pedro Stedile é membro da coordenação nacional do MST e da Via Campesina.
