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XVIII. WIKILEAKS - Brasil (Página 2)

Ditadura e o Novo 'Companheiro' dos Militares, Luiz Inácio

6 de junho de 2016 / Publicado no Jornal Pravda (Rússia)XVIII. WIKILEAKS - Brasil (Página 2)

Os telegramas confidenciais e secretos emitidos pela Embaixada dos Estados Unidos em Brasília liberados por Wikileaks evidenciam que praticamente todos os políticos brasileiros, do PSDB, DEM, PMDB e até PT, reuniram-se nos últimos anos com os norte-americanos não para defender os interesses do Brasil, muito pelo contrário.

Este foi o caso, por exemplo, do então ministro da Casa Civil do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, José Dirceu, cujos cabos foram apresentados recentemente nesta seção WikiLeaks - Página 1 (Romero Jucá e WikiLeaks: A Hipocrisia Esquecida do PT), apontando para a relativa subserviência do PT em relação a Washington nos bastidores da política.

Nos quatro telegramas abaixo emitidos entre 2004 e 2010, os norte-americanos comentam impressões sobre a ditadura militar no Brasil, e suas consequências hoje: a Lei de Anistia, a posição do então presidente Lula e de movimentos locais por direitos humanos.

Ao longo de todos esses anos no governo federal, a leniência e até aliança com os ex-ditadores militares por parte da cúpula petista, especialmente do ex-presidente Lula que teve o ex-presidente da Arena da ditadura José Sarney (imagem acima) como um de seus homens-fortes, são bastante particulares já que não apenas tais personagens foram vítimas da ditadura, como também, atualmente, denunciam com tanta razão quanto hipocrisia o golpe em curso, perpetrado pelas mesmas oligarquias que aplicaram o golpe de 1964 e que, claramente, estão sendo respaldadas pelos ditadores militares e seus filhotes. Os mesmos absolvidos pelo PT nestes anos, contrariando movimentos sociais, por direitos humanos e organismos internacionais.

Golpe de Ontem e de Hoje: Muito Barulho e Politicagem, Nenhuma Lição

A historicamente frágil democracia brasileira vê-se profundamente abalada. Segundo diversas evidências, fortemente provocada por Washington que tenta, há mais de uma década, minar a integração latino-americana, em parceria com as elites locais.

No caso particular do Brasil, apoiando-se inclusive nas Forças Armadas - as mesmas que se submeteram aos interesses de Tio Sam no início dos anos de 1960, até aplicar o golpe militar de 1964 e impor uma sangrenta ditadura de 21 anos que, até hoje, gera condenação por diversos organismos internacionais pelos crimes de lesa-humanidade jamais punidos, nem sequer julgados.

Em 14 de dezembro de 2010 a Corte Interamericana de Direitos Humanos, órgão jurídico da Organização dos Estados Americanos (OEA), condenou o Estado brasileiro por não investigar os crimes da ditadura entre 1972 e 1975, em relação ao desaparecimento de 70 pessoas na região do Araguaia.

A Corte considerou inaceitável a concessão de anistia aos perpetradores de crimes contra a humanidade. "As disposições da Lei de Anistia que impedem a investigação e sanção de graves violações aos direitos humanos, são incompatíveis com a Convenção Americana, carecem de efeitos jurídicos e não podem seguir representando obstáculo para a investigação dos fatos do presente caso, nem para a identificação e punição dos responsáveis, e tampouco podem ter igual ou semelhante impacto a respeito de outros casos de graves violações aos direitos humanos consagrados na Convenção Americana ocorridos no Brasil", advertiu a OEA

Atraso Histórico

Nos países vizinhos, os ex-ditadores militares têm sido julgados e condenados. Na Argentina, onde a sociedade até hoje se mobiliza maciçamente, semana a semana por memória, verdade e justiça apesar do silêncio midiático, já são quase 200 sentenciados.

Na última semana de maio de 2016, o Tribunal de Buenos Aires condenou o último presidente do regime ditatorial do país, Reynaldo Bignone, a 20 anos de prisão por crimes de lesa-humanidade. A Justiça argentina declarou culpados outros 15 oficiais, por participação na Operação Condor. Em 2012, o ex-presidente do regime militar Rafael Videla morreu em cela comum, condenado à prisão perpétua.

Enquanto isso no Brasil, boa parte da sociedade e especialmente militantes petistas esperneiam, com razão, pela repetição da dose golpista made in USA de 1964 (guardadas as devidas proporções). As forças do Estado estão, como sempre e de acordo com a própria proposta do PT, ao lado das elites reacionárias e não da sociedade; portanto, prontas a abafar qualquer oposição mais forte ao impedimento da presidente Dilma Rousseff, garantindo os interesses das velhas oligarquias às quais, ironia do destino, o próprio PT se aliou nestes mais de 13 anos no governo federal.

É exatamente isso que os telegramas a seguir vêm recordar.

Os Telegramas Confidenciais

Fato muito importante recordado no primeiro cabo a seguir, datado de 1º de abril de 2004, é que a exemplo do que ocorre hoje em 1964 os norte-americanos negavam participação no golpe contra a democracia: "O jornal 'O Estado de São Paulo', edição de 31 de março, apresentou um ensaio do ex-embaixador dos EUA, Lincoln Gordon [1961-65] ridicularizando acusações de conluio do governo dos EUA com os autores do golpe". Mais tarde, seria comprovado, através de documentos e de depoimentos oficiais, que o governo de Washington havia arquitetado e financiado a queda do então presidente João Goulart.

Este cabo emitido a exatamente 40 anos do golpe de 64 pela "diplomata" Donna Jean Hrinak, aponta também algumas macabras ironias envolvendo os anos de ditadura e a política brasileira atualmente, e o "louvor" à ditadura por parte de setores da mídia e, fato completamente esquecido no Brasil, dele, Luiz Inácio (pasmem!).

No segundo documento confidencial aqui traduzido, em que o "diplomata" norte-americano John Danilovich trata das evidências do assassinato de Herzog e se surpreendem com o fato de os militares brasileiros legitimarem ainda hoje aquele regime, qualificando-a de "chocante", voltam a abordar a leniência politiqueira do "companheiro" Luiz Inácio com os ex-ditadores: "O presidente Lula, consciente da necessidade de relações amistosas com os militares e da importância de se avançar com a sua agenda política, não tem pressa de abrir arquivos da ditadura".

O telegrama continua: "Lula está ciente de que, desvendando os arquivos, não só arranharia suas relações com os militares, mas também tiraria amplamente o foco de sua agenda política", citando este discurso direto do ex-presidente aos seus ministros: "O governo deveria preocupar-se com a criação de empregos e em desenvolver o país".

No terceiro telegrama, de agosto de 2008 que se centra na polêmica envolvendo a Lei de Anistia, o "embaixador" Clifford Sobel observa: "Em 12 de agosto, o presidente Lula apoiou o parecer de Jobim, e declarou que o assunto [crimes militares durante a ditadura] foi 'encerrado'". Naquele contexto, o presidente Lula atendia aos pedidos do então ministro da Defesa, Nelson Jobim, homem forte dos militares. "Com o presidente Lula apoiando a visão de Jobim, de que 'o passado é passado', a polêmica da anistia desapareceu das manchetes dos jornais de hoje", apontou o "diplomata" norte-americano.

O quarto e último telegrama, de janeiro de 2010, a "diplomata" Lisa Kubiske analisa também a "visão" dos tomadores de decisão brasileiros sobre a Lei de Anistia, e as vozes no deserto locais, os movimentos por direitos humanos e alguns militantes petistas constantemente qualificados de "radicais de ultra-esquerda" pela cúpula partidária, autodenominada "esquerda moderada".

Enquanto vergonha na cara é uma das virtudes mais admiráveis no ser humano, bem que Lula e companhia, agora, estão tentando desesperadamente retornar às origens, uma vez desmoronados os deslumbres com os privilégios do poder. É, todavia, tarde demais.

E sem dúvida, a justiça é sempre o melhor caminho, restando saber quando o Brasil, enfim, aprenderá esta simples lição que tem cobrado amargas experiências.


XVIII. WIKILEAKS - Brasil (Página 2)Telegrama emitido pela embaixadora norte-americana no Brasil
Traduzido ao português com exclusividade pelo Blog
Comentando suas impressões sobre a ditadura brasileira
E as consequências ao país hoje


1.4.2004 / Fonte: Wikileaks.ch

Tradução de Edu Montesanti


15587 - 4/1/2004 - 13:14 04BRASILIA 784 Embassy Brasilia UNCLASSIFIED // FOR OFFICIAL USE ONLY

UNCLAS SECTION 01 OF 02 BRASILIA 000784 SIPDIS SENSITIVE E.O. 12958: N/A TAGS: PGOV, PINR, PREL, SOCI, BR, Política Doméstica, ASSUNTO: BRASIL: QUADRAGÉSIMO ANIVERSÁRIO DO GOLPE MILITAR REF BUENOS AIRES 961 1.


1. (SBU) Introdução e Resumo.

Ao contrário do contratempos civil-militares em torno do 28 º aniversário do golpe militar na Argentina (reftel), o Brasil marcou o 40 º aniversário (31 de março), do seu golpe de uma forma mais prudente. A monumental transição para uma democracia plena durante as últimas duas décadas, parece quase que uma certeza em grande parte da cobertura, enquanto a mídia brasileira concentrou-se em tratar de asos de direitos humanos, reacendendo as condições que levaram à ação militar, e opinou sobre outros extensos efeitos, a longo prazo, causados pelo regime militar de 19 anos. Enquanto segue em declínio contínuo, o regime militar ainda lança algumas sombras entre a relação Brasil-EUA. Fim da introdução e resumo

Quarenta Anos Atrás ----------------
2. (SBU) Os principais meios de comunicação brasileiros têm detalhado as circunstâncias e o legado do golpe militar de 1964, que depôs o presidente Goulart e deu início a duas décadas dos "generais-presidentes". Embora lamentando as violações dos militares aos direitos humanos, equivocados projetos faraônicos na Amazônia e, finalmente, políticas econômicas fracassadas, alguns analistas creditam aos presidentes militares a modernização do Brasil e, ocasionalmente, defendendo os Estados Unidos. Esse louvor "na contra mão" recorda comentários do então candidato Lula da Silva em 2002, que creditou ao mesmo governo militar que o havia prendido, a realização de planejamento estratégico que beneficiou o país. Outros legados dessa época têm recebido menos atenção da mídia. Estes incluem a volumosa e enorme Constituição de 1988 - uma reação exagerada à ditadura que prejudicou a eficiência da governabilidade, detalhando minuciosamente ampla gama de estados e direitos dos cidadãos - e a influência excessiva do partido da oposição no regime aprovado, o PMDB, que evoluiu para uma máquina de clientelismo que causa descontentamento em presidentes ainda hoje.

Os Militares Hoje -----------------
3. (SBU) Não surpreendentemente, os militares brasileiros formam, talvez, a única instituição brasileira que mais mudou desde a época da ditadura. A experiência dos militares no governo foi em grande medida controversa e frustrante, e hoje os soldados não querem participar da vida política. As forças armadas brasileiras estão agora sob a firme autoridade civil, e sem problemas desempenham papel menor nas decisões nacionais. Embora a Constituição do Brasil conferira ao militar um papel de ordem interna em tempos de crise, tais agentes já não se veem como baluarte da nação contra políticos incompetentes. Em vez disso, estão muito focados no profissionalismo visando proteger as fronteiras nacionais, preparar-se para missões de paz e prestar assistência às populações mais distantes. A mudança é amplamente percebida, e pesquisas de opinião pública mostram consistentemente os militares entre as instituições mais confiáveis do país, embora o seu financiamento tenha diminuído ao longo dos anos.

4. (SBU) Resta algum ponto negativo. Existe um sentimento entre alguns oficiais mais velhos e aposentados, de que os passos que os militares deram reconduzindo o país à democracia, não são reconhecidos hoje em dia. E ainda há alguma dose sutil de rancor em relação ao governo dos EUA, devido ao sentimento, entre alguns oficiais mais velhos, de que os EUA mudaram abruptamente do apoio ao governo militar, em condená-lo por violações aos direitos humanos. Além disso, a relutância dos militares brasileiros em assumir algumas missões antidrogas e o controle da criminalidade, que poderiam envolver violentas medidas contra civis, é reforçada pela persistência de dúvidas sobre os desaparecimentos não resolvidos em relativos à contrainsurgência de 1970.

Legado Econômico---------------
5. (SBU) O aspecto positivo mais alardeado em relação à ditadura foi o suposto "milagre econômico", comumente atribuído à direção do desenvolvimento industrial do Estado por equipes qualificadas de tecnocratas não-ideológicos. O crescimento do PIB do Brasil foi considerado a mais alto do mundo a partir da década de 1960, até ser interrompido pela crise mundial do petróleo na década de 1970. A ditadura concluiu projetos gigantescos energéticos e de infra-estrutura. Os generais também criaram e estimularam (com estritas reservas de mercado) algumas das indústrias pesadas chave (automóveis, por exemplo) e a produção "estratégica", sobretudo de informática. (Ironicamente, em parte foi justamente a ênfase na proteção das indústrias pesadas que causou as greves do movimento sindical na década de 1970, bases eficazes para a crescente oposição democrática.

6. (SBU) Ao mesmo tempo, tornou-se reconhecido que o "milagre" pouco fez para diminuir a maldição histórica da pobreza do Brasil e as desigualdades sociais - a riqueza acumulada principalmente pela elite e por uma classe média ampliando-se lentamente pelo sul, também trouxe benefícios aos trabalhadores industriais, mas os pobres do país ficaram ainda mais pobres. Mesmo as estatísticas sobre as quais o regime baseou suas alegações de amplo crescimento, encerraram a discussão. No contexto das atitudes e das política econômicas oficiais, a ditadura do Brasil deixou poucos sinais visíveis. Todos, tanto do setor público quanto do privado aqui, reconhecem que o Estado não pode mais dispor dos recursos a fim de iniciar um projeto de desenvolvimento de ampla base.

Algumas Repercussões Remanescentes de Interesse dos EUA -------------------------------------------- - -
7. (SBU) Alguns jornalistas e acadêmicos retratam os EUA como incentivadores diretos dos golpistas, ou que pelo menos sabiam dos planos. Algumas das publicações mais sensacionalistas traçam elaborados paralelos entre 1964 e o nível de influência dos EUA no Brasil hoje. Mas outros jornalistas brasileiros observam que o governo dos EUA têm proporcionado maior acesso a documentos e gravações de conversas oficiais daquela época, disponíveis nos arquivos brasileiros, e "O Estado de São Paulo", edição de 31 edição de março, apresentou um ensaio do ex-embaixador dos EUA, Lincoln Gordon (1961-65) ridicularizando acusações de conluio do governo dos EUA com os autores do golpe. Os observadores mais informados concluíram que a liderança civil-política brasileira tinha consigo importante medida de responsabilidade, e que os generais e comandantes que orquestraram o golpe estavam preparados para avançar, independentemente das ordens dos EUA.

8. (SBU) A revista semanal VEJA salientou que um importante legado do regime militar é o estado do programa nuclear do Brasil. As tentativas fracassadas da ditadura de fabricar uma arma nuclear, e sua cooperação com o Iraque e outros, ainda dão o tom nas decisões de política brasileira. A militarização do programa contribuiu para que o Brasil não assinasse o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares até 1998, e por algum tempo retardou a evolução do Brasil em uma história de sucesso na não-proliferação regional.

9. (SBU) Indiretamente, o golpe também construiu o prestígio que Fidel Castro ainda mantém entre esquerdistas do Brasil. A aproximação de Goulart com Castro e Che irritou os militares brasileiros, mesmo antes do golpe. O apoio de Fidel Castro aos derrotados insurgentes brasileiros do início dos anos 1970, e aos movimentos políticos da oposição e sindicatos, ainda o mantém querido entre os principais personagens do atual governo, alguns dos quais buscaram refúgio em Cuba durante o período militar, incluindo o ministro da Casa Civil, José Dirceu.

Água por debaixo da Ponte ----------------------
10. (SBU) Comentário. Duas das três pontes de Brasília receberam nomes de presidentes militares. O terceiro mais novo homenageia um presidente civil popular que perdeu os direitos políticos durante o regime militar, e de cuja morte a ditadura recebe alguma culpa. A cultura do Brasil, a economia e a vida política ainda contêm muitas ironias desse tipo (por exemplo, a EMBRAER, gigante da propriedade privada de aviação, começou como uma sinecura paraestatal para ex-oficiais da Força Aérea em 1969, e o ministro Celso Amorim e seu esquerdista vice-ministro trabalharam para uma empresa paraestatais durante a ditadura). Os aspectos mais duros da ditadura, e o retorno após muito tempo à democracia, não são esquecidos. No entanto, 40 anos depois do golpe e 19 após o retorno ao regime democrático, o período militar tem relevância cada vez menor para uma sociedade progressista em que um terço da população nasceu após a restauração da democracia. As instituições civis e políticas do Brasil estão agora plenamente democráticas, o exército é uma força profissional respeitada (se subfinanciado), e algumas das figuras da oposição da época militar estão agora dirigindo o país.

HRINAK



XVIII. WIKILEAKS - Brasil (Página 2)Telegrama emitido pelo embaixador norte-americano no Brasil
Traduzido ao português com exclusividade pelo Blog
Comentando o caso Herzog - jornalista e militante de esquerda
Misteriosamente morto durante a ditadura militar no Brasil


27.10.2004 / Fonte: Wikileaks.ch

Tradução de Edu Montesanti


22082
10/27/2004 13:16 04BRASILIA2684 Embassy Brasilia UNCLASSIFIED//FOR OFFICIAL USE ONLY

UNCLAS SECTION 01 OF 03 BRASILIA 002684 SIPDIS SENSITIVE E.O. 12958: N/A TAGS: PHUM, PGOV, SOCI, PINR, BR, Política Nacional ASSUNTO: CASO HERZOG REABRE FERIDAS DA DITADURA DO BRASIL


1. (SBU) RESUMO. Em 1975, durante a ditadura militar no Brasil, o jornalista esquerdista Vladimir Herzog morreu em circunstâncias suspeitas em um edifício do governo em São Paulo. O regime classificou sua morte de suicídio, mas a maioria acreditava que ele havia sido assassinado, e Herzog tornou-se um estudo dos casos de abusos do regime. Duas semanas atrás, o jornal diário de Brasília "Correio Braziliense" publicou uma reportagem de destaque com fotos vazadas, que, aparentemente, mostram Herzog humilhado na cela, pouco antes de sua morte. Se verdadeiras, as fotos de abuso apoiariam a teoria de que ele foi assassinado. Surpreendentemente, o Exército brasileiro respondeu com uma declaração legitimando as medidas da ditadura, e classificou a cobertura da imprensa como "um pouco de tentativa de vingança". O presidente Lula ficou indignado, e o chefe do Exército rapidamente emitiu um comunicado mais adequado expressando remorso pela morte de Herzog. Em outra reviravolta, surgiu então o homem que, em pelo menos duas das três fotos, não era Herzog, absolutamente, mas um padre canadense que entrou em conflito com o regime, brevemente detido em 1975. O legado do caso Herzog será uma discussão mais ampla sobre como lidar com os arquivos militares da época da ditadura, que estão atualmente fechados, por cinquenta anos. O presidente Lula, consciente da necessidade de relações amistosas com os militares e da importância de se avançar com a sua agenda política, não tem pressa de abrir arquivos da ditadura. Ele vai deixar os próximos passos para o Congresso, para os tribunais e para a opinião pública.

RESUMO FINAL. MORTE DE HERZOG E OS ARQUIVOS ESQUECIDOS -------------------------------------- 2. (U) Quando foi preso pelo regime militar em 24 de outubro de 1975, Vladimir Herzog era membro do Partido Comunista do Brasil e diretor de Jornalismo da "TV Cultura". Ele foi levado para interrogatório em uma famosa instalação do regime em São Paulo, tornando-se um dos cerca de 3 mil presos políticos detidos na ocasião. No dia seguinte, as fotos de seu corpo foram liberadas - havia sido enforcado na janela de sua cela (a janela é tão baixa e próxima ao chão, que os joelhos de Herzog quase tocaram o piso, gerando dúvidas imediatas sobre o cenário do enforcamento). Embora o regime tivesse insistisse que Herzog havia se suicidado, foi amplamente acreditado que tivesse sido torturado e assassinado. O rabino de São Paulo, que presidiu seu funeral, recusou-se a enterrar Herzog na seção de suicídio do cemitério.

3. (U) Em 1997, 12 anos após o retorno ao regime civil, um oficial de inteligência que, mesmo tardiamente em 1995, estava espionando os partidos políticos de esquerda, teve uma crise de consciência. Ele reuniu uma pilha de arquivos a partir do centro de inteligência militar e os entregou ao Comitê de Direitos Humanos da Câmara Federal dos Deputados, onde juntaram a poeira até este mês. A Comissão de Direitos Humanos está reorganizando seus arquivos, e os arquivos retornaram. Em 17 de outubro de 2004, em uma espetacular matéria de seis páginas, o jornal diário de Brasília "Correio Braziliense" publicou três fotos que vazaram da comissão que, aparentemente, mostram Vladimir Herzog nu e humilhado, com a cabeça nas mãos sentado em sua cela.

PRIMEIRA RESPOSTA MILITAR CHOCANTE ---------------------------------- 4. (U) A resposta dos militares para os artigos não foi nada menos que chocante em defesa da ditadura militar: "A partir de meados da década de 1960 até início dos anos 1970", diz a declaração emitida pelo Centro de Comunicações do Exército, "houve um movimento subversivo no Brasil agindo sob ordens dos centros conhecidos do Movimento Comunista Internacional, planejando derrubar, pela força, o governo brasileiro legalmente constituído. Na época, o Exército brasileiro, respondendo à demanda popular, proporcionou, junto com as outras forças armadas e com as forças policiais, uma força de pacificação que levou o Brasil de volta à normalidade. As medidas tomadas pelas Forças legais foram uma resposta legítima à violência dos que se recusaram ao diálogo e optaram pelo radicalismo. ... O Movimento de 1964 (ou seja, o golpe militar), fruto da demanda popular, criou as condições para a construção de um novo Brasil, em ambiente de paz e segurança".

5. (U) "O Ministério da Defesa tem, insistentemente, ressaltado que não existem documentos históricos comprovando que as mortes ocorreram durante essas operações - considerando que os registros das atividades de inteligência da época foram destruídas em conformidade com as decisões judiciais. ... As declarações da mídia, baseadas em terceiros que estiveram com os arquivos pessoais, não são de responsabilidade das Forças Armadas. ... Sem nenhuma mudança em nossa posição ou nossa em convicção sobre o que aconteceu nesse período, (nós) consideramos essa ação (ou seja, os artigos do "Correio") um pouco de tentativa de vingança ou de estimular discussões estéreis sobre os acontecimentos passados, que não levam a nada".

E A SEGUNDA DECLARAÇÃO, POUCO DEPOIS ----------------------------------- 6. (SBU) A imprensa, o público e o presidente Lula - que foi preso durante a ditadura - ficaram indignados com a declaração do Exército. Lula ligou ao ministro de Defesa, Viegas, que explicou que a declaração tinha sido liberada sem sua autorização. Viegas, colocado como chefe do Exército pelo general Francisco Albuquerque, qume rapidamente emitiu uma segunda declaração lida, "O Exército brasileiro lamenta a morte do jornalista Vladimir Herzog. ... Eu entendo que a forma como este foi tratado não foi adequada, e que só a ausência de uma discussão interna mais profunda pode permitir a comunicação do Exército Central de emitir uma declaração tão descontextualizada com o atual momento histórico". Viegas deu o caso como encerrado. Um boato que foi confidencialmente confirmado a nós pelo deputado de Viegas, Fernando Abreu, foi que a primeira declaração foi uma tese que o Exército havia sustentado por anos sem qualquer incidente nem reclamação. Abreu classificou isso de "estupidez".

QUEM É O HOMEM DAS FOTOS? ----------------------------- 7. (U) As estranhas voltas na história não cessam. Poucos dias depois, os agentes de imprensa e do governo brasileiro analisaram as três fotos e revelaram que, pelo menos duas deles, não eram de Herzog, mas do padre canadense Leopold D'Astous, agora aposentado no Canadá, que morou no Brasil na época, e foi brevemente preso por trabalhar com grupos de jovens. A viúva de Herzog admitiu que ela pode ter sido precipitada a confirmação da sua identidade nas fotos, mas acredita que a terceira foto ainda pode ser de seu esposo.

COMENTÁRIO - O QUE FAZER COM OS ARQUIVOS? ------------------------------------ 8. (SBU) O legado do caso Herzog é uma discussão que agora se inicia sobre o destino dos arquivos militares da época da ditadura. A maioria dos arquivos oficiais foram lacrados durante cinquenta anos por um decreto do presidente Fernando Henrique Cardoso. Os registros oficiais especificamente relacionados com a "Batalha do Araguaia" (a sangrenta repressão do movimento comunista no interior do estado do Pará) têm sido, segundo todos os relatos, completamente destruídos, apesar de que cópias piratas feitas por oficiais do Exército envolvidos na operação, tenham vindo à tona. Mas muitos outros arquivos, incluindo as referentes ao tratamento dos presos políticos, continuam existindo. O presidente Lula não tem pressa em abri-los, dizendo aos chefes do serviço em 24 de outubro, que ele apoia mantê-los fechados e advertiu os funcionários a colaborar com o Comitê de Direitos Humanos, que deveria realizar audiências. Lula está ciente de que, desvendando os arquivos, não só arranharia suas relações com os militares, mas também tiraria amplamente o foco de sua agenda política ("Esta questão está agora com o Comitê de Direitos Humanos, o governo deveria preocupar-se com a criação de empregos e em desenvolver o país", Lula disse aos ministros). O presidente da Comissão dos Direitos Humanos na Câmara, Mario Heringer (PDT-MG), ordenou que os arquivos do Comitê sejam revistas para ver se existem mais revelações explosivas, e ligou ao oficial da inteligência que entregou os arquivos ao comitê em 1997, a fim de servir como prova. Enquanto isso, a Imprensa e os analistas estão oferecendo uma variedade de opiniões sobre a melhor forma de lidar com os arquivos a longo prazo.

9. (SBU) Enquanto Lula e o ministro de Defesa Viegas pareciam satisfeitos com o segundo comunicado oficial emitido pelo chefe do Exército, Albuquerque, o contratempo sobre as declarações sugerem que ainda existem alguns bolsões do "pensar antigo" no corpo de oficiais - mas não há razão para ver isso como uma ameaça à autoridade institucional democrática sobre os militares. As relações de Viegas com os ministros do governo, já tensas, apenas pioraram com o caso Herzog. E antes mesmo, já havia rumores de que Viegas perderia seu emprego na próxima composição ministerial de Lula. Enquanto o Exército fica com um olho fechado neste caso, Lula parece pronto para avançar em outras questões e deixar-se levar para os outros.

Dalinovich



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XVIII. WIKILEAKS - Brasil (Página 2)Telegrama emitido por embaixador norteamericano
Traduzido ao português com exclusividade pelo Blog
Comentando manifestações sobre Lei de Anistia no Brasil
Por parte de políticos e ativistas locais por direitos humanos


19.8.2008 / Fonte: WikiLeaks.ch

Tradução de Edu Montesanti


166577
8/19/2008 15:15 08BRASILIA1120 Embassy Brasilia UNCLASSIFIED//FOR OFFICIAL USE ONLY

UNCLAS BRASILIA 001120 SENSITIVE SIPDIS E.O. 12958: N/A TAGS: BR, MARR, PGOV, PHUM
Assunto: POLÊMICA SOBRE O BRASIL, Lei de Anistia S InFlames velhas tensões


1. (U) Em 31 de agosto, o ministro da Justiça brasileira, Tarso Genro, chamou de perseguição de membros dos militares brasileiros envolvidos em violações dos direitos humanos, incluindo tortura, durante o governo militar do Brasil, 1964-85 . Isso exigiria uma revisão da lei de 1979 sobre a anistia, que suspendeu os processos por "crimes de Estado" .Tarso recebeu amplo apoio de direitos por direitos humanos e das comunidades acadêmicas do Brasil, que citam as convenções internacionais que definem a tortura como crime contra a humanidade. Como tal, argumentam aqueles que são favoráveis à revisão da lei, que isso abrangeria a definição de crimes de Estado, protegida pela lei de anistia.

2. (U) A afirmação do ministro Tarso suscitou forte reação da comunidade militar no Brasil. Vários oficiais de altos escalões, incluindo o presidente do Clube Militar, Gilberto Figueiredo, reivindicaram ao Ministério da Justiça que se concentre em outros assuntos, incluindo os possíveis processos em relação à violência antigovernamental durante o período do regime militar. Grupos que cometerem tais atos de violência, acabaram formando vários membros proeminentes do governo do presidente Lula, incluindo a chefe da Casa Civil, Dilma Rouseff. O ministro da Defesa, Jobim, ex-chefe do Tribunal Superior, pediu uma abordagem moderada, dizendo que a questão de crimes durante o regime militar era questão para o judiciário, não para o executivo. Em 12 de agosto, o presidente Lula apoiou o parecer de Jobim, e declarou que o assunto foi "encerrado". Apesar da declaração do presidente, vários membros do Partido dos Trabalhadores de Lula, e outros defensores dos direitos humanos manifestaram publicamente o compromisso de se prosseguir com a revisão da lei de anistia.

3. (SBU) Comentário: Embora os esforços para se buscar a justiça (ou retaliação política, dependendo da posição política) para as ações do governo militar não sejam novas no Brasil, neste ano a controvérsia provocou reações mais fortes que no passado. Com o início de impopularidade e negligência dos militares que passaram a surgir há mais de duas décadas, seus dirigentes querem evitar reabrir velhas feridas. Um oficial da Força Aérea Brasileira encurralou um membro do DAO, e passou quarenta minutos dizendo-lhe o quanto a mudança da anistia seria contraproducente. Ao mesmo tempo, os antigos opositores do regime militar, alguns dos quais ocupam postos-chave do governo, poderão ver os dois últimos anos do governo Lula como sua última chance de tentar obter condenações de ex-militares. A escolha dos grupos de direitos humanos de enfatizar as acusações de tortura, uma clara violação das normas internacionais de direitos humanos, dá-lhes base legal para atacar a anistia. Os tribunais, no entanto, estão adotando uma abordagem cuidadosa. O presidente do Supremo Tribunal, Mendes, advertiu que os casos sobre os governos militares tinham sido "uma fonte de instabilidade a muito longo prazo" em outros países. Com o presidente Lula apoiando a visão de Jobim, de que "o passado é passado", a polêmica da anistia desapareceu das manchetes dos jornais de hoje, mas os fortes sentimentos que revivem o período da ditadura militar, em ambos os lados, permanecem. O problema pode, muito bem, incendiar-se novamente.

SOBEL



XVIII. WIKILEAKS - Brasil (Página 2)Telegrama emitido pela embaixadora norteamericana no Brasil
Traduzido ao português com exclusividade pelo Blog
Comentando a Lei de Anistia e a defesa por direitos humanos no país


27.1.2011 / Fonte: WikiLeaks.ch

Tradução de Edu Montesanti


UNCLAS BRASÍLIA 000086 SIPDIS E.O. 12958: N / A TAGS: Phum, PGOV, ECON, EAGR, MCAP, SOCI, SUJEITO BR: controvérsia sobre Subsídios do Novo Programa de Direitos Humanos, REF: 08 BRASÍLIA 1120


1. Resumo: O presidente Lula foi pego de surpresa pela onda de controvérsia, inclusive dentro de seu próprio governo, que se seguiu ao lançamento público do Terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos do governo federal, sob decreto presidencial em 21 de dezembro.
O programa é de fato de grande alcance, pedindo, entre outras coisas: criação de uma Comissão Nacional da Verdade para analisar violações de direitos humanos cometidos durante o período do regime militar, 1964-1985; mediação entre os proprietários e aqueles que invadem suas terras antes da polícia remover à força os invasores, e criação de um ranking nacional da mídia de acordo com sua adesão aos padrões de direitos humanos, juntamente com as penalidades à Imprensa que viole os direitos humanos.
Há um total de 521 "ações programáticas" recomendadas pelo governo, exigindo mais ação do Congresso ou ação por parte do judiciário, do ministério público ou dos estados. Até mesmo o ministro de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, principal proponente do programa, admitiu que a implementação "pode levar anos". Enquanto isso, no entanto, a Imprensa noticiou que o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e os comandantes das Forças Armadas alegaram que a Comissão da Verdade era "revanchista", e ameaçou se demitir.
O presidente Lula ordenou a Jobim e Vannuchi que eliminem as diferenças, o que fizeram em 13 de janeiro concordando em alterar a linguagem criando a Comissão da Verdade, mantendo, contudo, seus poderes essenciais. Fim resumo.

2. Culminação de um processo de sete anos
Desde que o presidente Lula decretou o Terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos, em 21 de dezembro, a controvérsia inflou-se na mídia, nas Forças Armadas e entre seus próprios ministros. O plano consiste em um total de 521 "ações programáticas" recomendadas pelo governo federal, mas muitas vezes necessitando de ação por parte do Congresso (por exemplo, aprovação de alguma lei), do judiciário, do ministério público (promotores) ou dos estados antes que possam ser implementadas. É o terceiro programa, as duas primeiras tendo sido elaboradas e aprovadas pelo governo de Fernando Henrique Cardoso, em 1996 e 2002, cada programa substituindo o anterior.

3. Perly Cipriano, Subsecretário Nacional para a Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, disse Poloff em 15 de janeiro que o plano era culminar um processo iniciado em 2003. Envolveu mais de 50 conferências temáticas a nível nacional (sobre temas como igualdade racial, direitos da mulher, segurança alimentar, etc) e 137 encontros municipais e regionais em que um total de 14 mil pessoas participaram. O programa que Lula finalmente decretou, derivou de uma série de resoluções aprovadas pelos participantes da Décima Primeira Conferência Nacional de Direitos Humanos em dezembro de 2008. No ano passado, Cipriano e seus colegas da Secretaria Especial de Direitos Humanos, sob a direção do ministro Paulo Vanucchi, reorganizou as resoluções e usou-as para criar o Terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos. O programa não só especifica as ações a serem tomadas, mas os nomes dos órgãos de governo que são responsáveis.

4. Comissão da Verdade controvérsia
De acordo com Cipriano, 30 ministérios se comprometeram a trabalhar para cumprir os termos do programa. Significativamente, no entanto, parece que o ministério da Defesa não participou ativamente na elaboração do plano e, ao contrário da maioria ministros, o ministro da Defesa Jobim não assinou o decreto presidencial. Nas semanas seguintes à emissão do decreto, Jobim foi o maior destaque e mais poderoso dos críticos do programa, supostamente ameaçando s demitir juntamente com os três comandantes das Forças Armadas se a disposição em estabelecer uma Comissão Nacional de Verdade não fosse alterado.

5. A Comissão da Verdade, de acordo com os termos do decreto de 21 de dezembro, vai "promover a verificação e explicação pública das violações dos direitos humanos cometidas no contexto de repressão política" pelo regime militar de 1964-1985. A medida invocou um projeto de criação da comissão para ser apresentado ao Congresso até abril de 2010. Vannuchi fez notar que as comissões de verdade têm funcionado bem em países latino-americanos como Chile e Argentina, bem como fora da América Latina, na África do Sul. Ele escreveu em um artigo de opinião em 21 de dezembro, no "Correio Braziliense" que a comissão se encarregaria de processos "históricos, políticos, éticos e - se o poder judicial assim o decidir - também de um processo penal em relação a todos os episódios de assassinato, tortura e desaparecimentos de dissidentes políticos". Ele acrescentou que o objetivo era "não abrir feridas do passado, mas garantir a cura necessária no espírito de reconciliação".

6. Particularmente preocupante para os militares e para o ministro da Defesa, Jobim foi a sugestão de processos criminais de militares e membros do regime militar 1964-1985, o que eles chamam de "revanchista". Para eles, a medida efetivamente revogou a Lei de Anistia de 1979, que oferece proteção ampla contra o processo por crimes cometidos durante o período militar, seja por militares ou por grupos guerrilheiros de esquerda. Eles também apontaram que a medida do Programa de Direitos Humanos era unilateral, na medida em que chama para a investigação apenas de abusos cometidos pelo regime, e não aqueles cometidos por seus inimigos de esquerda (alguns dos quais estão no governo hoje).

7. A controvérsia foi totalmente exibida na Imprensa, com Vannuchi supostamente ameaçando sair do governo se a Comissão da Verdade fosse retirada do Programa de Direitos Humanos. O presidente Lula ordenou que Vannuchi e Jobim resolvessem suas diferenças. Em uma reunião em 13 de janeiro, durando apenas 50 minutos Vannuchi e Jobim chegaram a um acordo: as palavras "promover a verificação e explicação pública das violações dos direitos humanos" foram alteradas para "examinar violações dos direitos humanos", e as palavras, "no contexto de repressão política" foram suprimidas; os poderes essenciais da Comissão de Verdade e o cronograma para a apresentação de um projeto de lei ao Congresso permanecem inalterados. Enquanto Jobim expressou satisfação com o acordo, a liderança militar não a possui. Conforme observado neste telegrama, qualquer alteração às disposições da Lei de Anistia será reunida com forte oposição militar.

8. Impulso para o Movimento dos Sem Terra
Também divide o governo, embora não tão severamente como a Comissão da Verdade, uma medida do Programa de Direitos Humanos que exige a mediação entre os proprietários e aqueles que invadem suas terras, antes que a polícia remova à força os invasores. Tal mediação ocorrerá na presença do Ministério Público (procuradores), as autoridades locais, "órgãos governamentais especializado", e as Forças Armadas.

9. Polícia
A senadora da oposição Katia Abreu, que também é presidente da Confederação Nacional da Agricultura, disse à Imprensa que a medida, por complicar e atrasar despejos, incentivará e fortalecerá as organizações como o Movimento dos Sem Terra que se apodera de terras ilegalmente. Aparecendo para ecoar sentimentos de Abreu, o ministro da Agricultura Reinhold Stephanes, disse que a medida "aumentará a insegurança no campo". Stephanes foi, então, publicamente contra-argumentado pelo ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, que observou que Stephanes, juntamente com todos os outros ministros, teve quatro meses para refletir sobre o projeto de Programa de Direitos Humanos e levantar objeções que poderia ter tido. Cassel disse que a mediação, "especialmente para as questões rurais, é correta, pois ele leva a soluções negociadas".

10. A mídia deve ser monitorada pelo governo
O Programa de Direitos Humanos apela à criação de um "ranking nacional de veículos de comunicação que promovam os princípios de direitos humanos, bem como aqueles que cometem violações". Emissoras de rádio e televisão estariam sujeitas a "sanções administrativas tais como advertência, suspensão, multa de programação e cancelamento, de acordo com a gravidade das violações cometidas". Presumivelmente, a mídia será medida contra "um sistema nacional de indicadores de direitos humanos", que é convocada em uma uma seção do plano em "mecanismos de controle social".

11. A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, Associação Nacional de Editores de Revistas e Associação Nacional de Jornais emitiu uma nota conjunta à imprensa em 08 de janeiro de chamar a proposta do GOB é "uma ameaça à liberdade de expressão". Eles disseram que "os mecanismos de controle da informação" são "flagrantemente inconstitucional". Jornal Brasil de registro, "O Estado de S. Paulo", foi ainda mais longe em um 19 de janeiro editorial, vendo o plano no contexto de um esforço mais amplo por parte do Governo Lula "para liquidar o Estado de Direito e instalar em Brasil um regime autoritário".

12. Aborto, uniões civis, símbolos religiosos
Outras propostas polêmicas do Programa de Direitos Humanos se dão em descriminalizar o aborto, o apoio à união civil de casais do mesmo sexo e proibir a exibição de símbolos religiosos em todos os edifícios do governo federal - todas as ações contra a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil da Igreja Católica. Lula indicou que pode voltar atrás sobre a descriminalização do tema do aborto, mas não comentou publicamente sobre uniões civis ou símbolos religiosos em prédios públicos.

13. Comentário
O Programa de Direitos Humanos é uma declaração da política de governo e um plano de ação; por si só, não muda nada. Cipriano, ex-membro do Partido Comunista Brasileiro e preso político de 1970-1979, chamou o plano de "uma orientação". O governo federal brasileiro deve agora começar a tarefa longa e árdua de convencer aliados e, se possível, alguns oponentes do juízo de tal orientação. Mesmo na estimativa de Vannuchi, o plano principal defensor da implementação "pode levar anos". Porque o plano é vasto, divisível e controverso, e foi anunciado no último ano do governo Lula, grande parte do qual nunca pode ser implementado. No entanto, o plano já expôs várias fissuras não resolvidas na sociedade brasileira: entre os militares e civis em relação a abusos que ocorreram durante o regime militar, entre proprietários de terra e um movimento potencialmente problemático ainda sem terra, entre aqueles que defendem a liberdade de imprensa e os que veem a mídia como muitas vezes irresponsável no exercício dessa liberdade, e entre os tradicionais do moralismo conservador doBrasil, e aqueles queapoim a tolerância e os direitos humanos. Se o novo governo brasileiro, que toma posse em 1 de janeiro de 2011, se ocupará ou não do plano, essas fissuras devem provavelmente acabar com as interrupções significativas na sociedade brasileira ou na política, mas continuará sendo uma fonte de fricção e de manchetes ocasionais nos próximos anos.

Kubiske



XVIII. WIKILEAKS - Brasil (Página 2)
Eleições 2006: Oposição Manteve Maior Contato com Diplomatas

7.3.2011 / Fonte: Natália Viana


Dentre os políticos brasileiros que tiveram contato com os diplomatas dos EUA, os do PSDB são os mais assíduos com 6 tucanos aparecendo em encontros. Além dos secretários paulistas Andrea Matarazzo (06SAOPAULO676) e Fernando Braga (06SAOPAULO935), estão figuras ilustres entre Tasso Jereissati (06BRASILIA1837), Aloysio Nunes (06SAOPAULO400), Sérgio Guerra (06SAOPAULO1963) e o então recém-eleito governador de São Paulo, José Serra com o próprio embaixador americano Clifford Sobel (06SAOPAULO1131).

O único pessedebista que aparece mais de uma vez nos telegramas é o secretário de Ciência e Tecnologia e seu coordenador de campanha, João Carlos Meirelles. Entre março e outubro de 2006, Meirelles estabeleceu 4 contatos com diplomatas americanos (06SAOPAULO316, 06SAOPAULO647, 06SAOPAULO810, 06SAOPAULO1069).

Além dos políticos do PSDB, foram também contatados pelos americanos nomes ligados ao partido como o tributarista Raul Velloso (06BRASILIA608), um dos acadêmicos da área econômica com quem Alckmin buscava conselhos. Outro nome ligado ao partido tucano é o de Christian Lohbauer (06SAOPAULO387) que foi secretário-adjunto de Relações Internacionais de Serra e na época do encontro foi identificado como lobista do setor aviário.

A decisão do partido entre Serra e Alckmin é analisada pelos americanos em um telegrama. A suspeita de uso de dinheiro público no financiamento da campanha de Alckmin que gerou o escândalo da Nossa Caixa também é mencionado pelos americanos (06SAOPAULO350) que se mostraram confusos com as acusações.

“De qualquer forma, dada à reputação ilibada de Alckmin, seria estranho para ele ter que se desviar com uma desculpa do tipo 'todo mundo faz isso'”, observam os americanos.

O programa do candidato tucano é detalhadamente descrito em telegrama de 3 de julho de 2006 (06SAOPAULO734). Nos comentários, o observador político do consulado americano de São Paulo cita uma de suas fontes (esta não-identificada).

“O problema de Alckmin é que, como um médico de interior, ele não sabe pensar grande”. A alusão à indisposição de alguns membros do partido do candidato vai mais longe em uma comparação. “Além disso, como anestesiologista, ele sabe como preparar o paciente para a cirurgia, mas está acostumado então a sentar-se e deixar alguém fazer o trabalho duro enquanto ele se satisfaz checando os sinais vitais”, cita o telegrama.

FHC e as esquerdas na América Latina – Diplomatas americanos ainda estiveram no seminário “A política externa brasileira para a América do Sul no período recente: balanço e perspectivas”, realizado no Instituto Fernando Henrique Cardoso (06SAOPAULO516). O evento contou com a presença do ex-ministro de FHC Sérgio Amaral, o ex-embaixador brasileiro nos EUA, Rubens Barbosa e o economista da PUC-RJ, Marcelo Paiva de Abreu.

O encontro, mediado pelo ex-presidente que dá nome à instituição, criticou a proximidade que Lula vinha mantendo com os vizinhos esquerdistas. Para os interlocutores, havia uma “esquerda positiva” na América do Sul identificada pelo Chile de Michéle Bachelet, e uma “esquerda negativa” constituída pelo boliviano Morales, o argentino Néstor Kirchner e o venezuelano Hugo Chávez. “As visões expressadas no painel não estão fora da perspectiva vigente da elite do Brasil”, comenta o telegrama.

Kassab - Outro partido da oposição que teve encontros com diplomatas americanos foi o atual DEM, com quatro políticos participando de reuniões. Além dos já mencionados Cláudio Lembo, José Carlos Aleluia e o falecido Antônio Carlos Magalhães, o então vice-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (06SAOPAULO102).

No encontro reportado no telegrama de 1 de fevereiro de 2006, Kassab, que atualmente negocia uma saída do DEM com partidos aliados do governo, via a aliança entre PFL e PSDB na disputa eleitoral como sendo “natural e legítima” e acreditava que o nome de Jorge Bonhausen seria o mais apropriado para ser vice na chapa da oposição. Para ele, Serra era o melhor candidato que o PSDB poderia lançar. O cable observa que algumas de suas fontes sugeriam que Kassab não tinha experiência para governar São Paulo. No entanto, notam sua importância dentro do PFL àquela época.

“Enquanto Kassab mantém-se discreto, ele é um homem hábil dentro de seu partido e muito próximo de Bonhausen”.

Vitória tucana no RS – Tratando ainda sobre o principal partido da oposição, há um telegrama que sai da esfera da disputa presidencial e foca a vitória de Yeda Crusius no Rio Grande do Sul (06SAOPAULO1105) sobre o candidato do PMDB, Germano Rigotto.

Os americanos se mostram surpresos tanto com o fato da vitória da tucana, quanto pela expressiva quantidade de votos a Alckmin no estado. Lula teve 1,5 milhão de votos a menos que Alckmin em um estado no qual ele sempre teve a preferência entre os eleitores. Para os diplomatas, esta foi uma reação aos escândalos envolvendo o PT no primeiro mandato de Lula.

Garotinho – um telegrama (05RIODEJANEIRO1118) de 10 de junho analisa as perspectivas de Anthony Garotinho, pré-candidato presidencial: “Garotinho: a caminho da presidência ou um exilado da política?”. Para o cônsul no Rio, se ele sobrevivesse ao escrutínio da justiça eleitoral, ele seria uma força política determinante. “E se a economia piorar, ou se os escândalos chegarema Lula, ele pode vir a ser o mais bem colocado nas eleições”, escreve.
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#Posté le jeudi 10 mars 2011 00:46

Modifié le lundi 05 février 2018 14:31


Telegrama emitido pela embaixadora norte-americana no Brasil
Plano de Washington: Constranger governo brasileiro
Usando a mídia a fim de não votar na ONU
A favor de punição internacional à difamação religiosa


3.4.2011 / Fonte: Vi o Mundo / Telegrama original, aqui: http://wikileaks.org/cable/2009/12/09BRASILIA1435.html

Tradução do Coletivo da Vila Vudu


"(...) O Estado de S. Paulo e O Globo, além da revista Veja, podem dedicar-se a informar sobre os riscos que podem advir de punir-se quem difame religiões, sobretudo entre a elite do país. Essa missão [embaixada] tem obtido significativo sucesso em implantar entrevistas encomendadas a jornalistas, com altos funcionários do governo dos EUA e intelectuais respeitados (...)". Aumentar a atividade pela mídia e o alcance das comunidades religiosas parceiras: até agora, nenhum grupo religioso no Brasil assumiu a defesa da difamação de religiões."


Observação do Blog: Há uníssona e antiga histeria ocidental contra os árabes, ridicularizados por Hollywood, discriminados nos noticiários - se um garoto palestino atira pedra em tanque de guerra israelense, é sumariamente acusado de terrorista, enquanto os covardes, genocidas ataques de Israel contra seu povo se tratam de "legítima defesa em nome do Estado, da religião e dos bons costumes".
Em 1º de março passado, na província de Kunar no Afeganistão, entre tantos e tantos outros massacres no país, nove meninos entre 9 e 15 anos de idade que recolhiam lenha, acabaram metralhados por engano por helicóptero Apache dos EUA. "Tentamos encontrar os pedaços dos corpos e juntá-los. Como estava ficando tarde, trouxemos os corpos em uma cama de pano. Estão enterrados no cemitério da vila", Ashabuddin [cidadão afegão] acrescentou. "As crianças eram todas de famílias pobres, senão ninguém iria mandar seus filhos para as montanhas, pelas ameaças conhecidas tanto dos rebeldes, quanto de norteamericanos" (noticiado por The New York Times, traduzido no Blog em O 11 de Setembro de Cada Dia do Afeganistão). Houve protestos locais, enquanto o comandante das operações dos EUA/OTAN no Orente Médio, general norteamericano David H.Petraeus, "retratou-se" lamentando profundamente, dizendo que sentia muito pelo engano dos ataques contra crianças inocentes, e que eles nunca deveriam ter acontecido, oferecendo 2 mil dólares como compensação a cada família, as quais negaram o dinheiro.
No Ocidente tendemos a inverter totalmente os papeis, classificando os afegãos que protestaram contra tais ataques de "muçulmanos rebeldes, homens de guerra que querem destruir os valores estadunidenses", ao passo que o general Petraeus sai da história como um "humilde homem de Deus que reconheceu publicamente seu erro, e o reparou com obras práticas".
Para que tal distorção total dos fatos e de seus agentes ganhe cada vez mais mentes e corações no mundo, a parceria de sucesso "governo norteamericano - agências de inteligência norteamericanas - mídia mundial - governos locias condescendentes - religiosos ultraconservadores hipócritas e preconceituosos em todo o mundo", tem agido de maneira muito clara conforme temos insistentemente argumentado neste Blog, desde seu primeiro dia de existência. Essa empreitada racista, um dos grandes pilares da tal "Guerra ao Terror", explica o porquê do esforço secreto de norteamericanos junto a políticos brasileiros e até à servil mídia local, no sentido de se anular uma resolução da ONU que criminaliza a difamação religiosa, conforme revelado abaixo por WikiLeaks, em mais um telegrama confidencial.



Escrito em 22.12.2009 / Liberado à Imprensa em 6.2.2011 / Classificação: Confidencial / Origem: Brasíla

VZCZCXYZ0002
OO RUEHWEB

DE RUEHBR #1435/01 3561928
ZNY CCCCC ZZH
O R 221928Z DEC 09
FM AMEMBASSY BRASILIA
TO RUEHC/SECSTATE WASHDC IMMEDIATE 0203
INFO RUCNDT/USMISSION USUN NEW YORK 0002
RUEHBR/AMEMBASSY BRASILIA
RUEHRI/AMCONSUL RIO DE JANEIRO
RUEHSO/AMCONSUL SAO PAULO

C O N F I D E N T I A L BRASILIA 001435

SIPDIS
DEPARTMENT FOR THE SECRETARY FROM CHARGE D'AFFAIRES
AMEMBASSY BRASILIA PASS TO AMCONSUL RECIFE

E.O. 12958: DECL: 2019/12/22
TAGS: PHUM PREL KISL KDEM PGOV OPDC BR
ASSUNTO: Estratégia para Engajar o Brasil na “Difamação de Religiões” (*)

REF: STATE 128320; STATE 128322; BRASILIA 1134; BRASILIA 1194 BRASILIA 1280; BRASILIA 1418 CLASSIFIED BY: Lisa Kubiske, Charge d'Affaires a.i.; REASON: 1.4(D)


1. (C) RESUMO: A posição do Brasil na questão da “difamação de religiões” na comissão de Direitos Humanos da ONU reflete a conciliação entre as objeções do país à ideia (objeções baseadas num conceito do que sejam Direitos Humanos) e o desejo de não antagonizar os países da Organisation of the Islamic Conference (OIC) com os quais tenta construir relações e que o Brasil vê como importante conjunto de votos a favor de o Brasil conseguir assento permanente no CSONU. À luz da argumentação a favor da abstenção do Brasil, proponho abordagem de quatro braços, envolvendo aproximação com os altos escalões do Ministério de Relações Exteriores; uma visita a Brasília, para pesquisar meios de trabalhar com o governo do Brasil, nessa e noutras questões de direitos humanos; outros governos que possam conversar com o governo do Brasil; e uma campanha mais intensa pela mídia e mobilizando comunidades religiosas a favor de não se punir quem difame religiões . FIM DO RESUMO.

Contexto: “Quando Direitos Humanos e ambição de chegar ao Conselho de Segurança entram em choque”.

2. (SBU) Essa embaixada levantou várias vezes a questão dos votos do Brasil no Departamento de Direitos Humanos e Temas Sociais do Ministério das Relações Exteriores. A última vez foi com a chefe do Departamento Ministra Glaucia Gauch. O Brasil nunca discordou de um único argumento dos que apresentamos em outros encontros.

A resposta sempre foi a mesma: o conceito de difamar religiões é repugnante. Repugna aos valores e princípios do Brasil e é inconsistente com a legislação brasileira e a legislação internacional. Por isso o Brasil não pode aprovar e não votará a favor de resolução que proíbe que se puna quem difama religiões. O Brasil abstém-se de votar.

3. (C) Perguntada sobre por que o Brasil não vota contra a resolução, dado que a considera absolutamente inadmissível, Gauch respondeu que o país entende que a abstenção é suficiente. Na opinião do Governo do Brasil, o país assume posição baseada em princípios, mas também prática, porque não interessa ao país ofender os países da Organização da Comunidade Islâmica, sobretudo os mais poderosos como Irã, Egito, Turquia e Arábia Saudita, países com os quais o Brasil tenta aprofundar relações.

É opinião dessa embaixada que o que mais interessa à política externa do Brasil é conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Como resultado, o Governo do Brasil prefere não antagonizar países e grupos de países cujos votos podem ser valiosos numa futura eleição.

Abordagem de quatro braços

4. (SBU) À luz dessa realidade complicada, proponho abordagem de quatro braços no caso do Brasil, sobre essa questão. Antes de qualquer das etapas e movimentos, deve-se declarar o compromisso dos EUA com o diálogo e a cooperação, e nosso empenhado esforço para manter o Brasil como um líder e um parceiro nessa questão.

Encontros de alto nível: Ao abordar os mais altos níveis do Ministério de Relações Exteriores, é essencial persuadir o Brasil a mudar seu voto e a trabalhar conosco a favor da “Difamação de Religiões”, até chegarmos a uma solução de conciliação. Telefonema da Secretária de Estado dos EUA ao Ministro Amorim das Relações Exteriores, logo depois da recente carta enviada por ela, demonstraria a importância que os EUA damos a essa questão. Também se deve abordar o vice secretário-geral do MRE ministro Antonio Patriota; e o subsecretário Burns deve abordar a subsecretária para assuntos políticos, embaixadora Vera Machado (que supervisiona questões de direitos humanos e política das organizações internacionais), o que muito ajudaria a aumentar a importância do tema na cabeça dos brasileiros (sic).

Só as abordagens nos níveis inferiores dificilmente conseguirão modificar a abordagem “em cima do muro” [orig. Brazil's hands-off approach] dos brasileiros sobre o assunto.

Um Diálogo sobre Direitos Humanos: Uma visita dedicada exclusivamente a essa questão, seria, na minha opinião, de pouco efeito, porque o Brasil aceita as premissas de nossa objeção. Ao mesmo tempo, uma discussão mais detalhada dos nossos pontos de vista e de nosso plano de ação, com níveis operacionais e político do MRE seria valiosa.

A abordagem mais efetiva (e, no longo prazo, mais valiosa para os interesses mais amplos do Governo dos EUA) poderia incluir a questão atual na pauta de um novo diálogo regular sobre direitos humanos, ideia que o próprio MRE (pelo emb. Patriota) propôs recentemente. O contexto mais amplo de um esforço para trocar ideias e para encontrar vias pra trabalharmos mais próximos do Governo do Brasil no campo dos direitos humanos nas organizações internacionais (tratando também, talvez, de outras das preocupações dos países chaves, incluindo o Irã e a Coreia do Norte, questões sobre as quais o Brasil sempre se abstém) criariam um fórum ideal para discussões e para conseguir que o governo do Brasil apóie o plano de ação proposto pelos EUA. Essa abordagem ampla seria atraente para os brasileiros, interessados em construir parcerias com os EUA, que ajudarão a validar o desejo de que o Brasil passe a ser visto como líder internacional. Essa abordagem seria mais bem recebida que abordagem focada, dirigida só à questão da difamação de religiões.

Abordagem por outros países: Desde que chegou ao cenário internacional, o atual governo do Brasil tem tido grande cuidado para não alinhar suas políticas às políticas dos EUA. O Brasil tem em alta conta o que considera como sua posição “de ponte” entre países em desenvolvimento e países desenvolvidos, por causa de sua disposição de falar com todos os países. Minha opinião é que essa posição tende a limitar o peso das opiniões dos EUA dentro do Governo do Brasil. Porque o Brasil vê-se ele mesmo como se fosse líder no bloco dos países latino-americanos, esses países pouco conseguirão influenciar as ideias do governo do Brasil. O mais provável é que ouçam outros países que consideram 'independentes' [aspas no orig.] dos EUA, como África do Sul, Rússia, China, Índia e França.

Ganhar o apoio para nossa posição de alguns membros da Organização da Conferência Islâmica, especialmente do Egito, Turquia e outros 'independentes' [aspas no orig.] influentes seria muito importante para que consigamos influenciar o voto do Brasil a favor da difamação das religiões. Em geral, abordagens feitas por qualquer outro país que apóie ação proposta pelos EUA servem como prova da natureza colaborativa de nossos esforços e podem ser úteis.

Aumentar a atividade pela mídia e o alcance das comunidades religiosas parceiras: até agora, nenhum grupo religioso no Brasil assumiu a defesa da difamação de religiões. Mas o Brasil é sociedade multirreligiosa e multiétnica, que valoriza a liberdade de religião. Um esforço para difundir a consciência sobre os danos que podem advir de se proibir a difamação das religiões pode render bons dividendos. Grandes veículos de imprensa, como O Estado de S. Paulo e O Globo, além da revista Veja, podem dedicar-se a informar sobre os riscos que podem advir de punir-se quem difame religiões, sobretudo entre a elite do país.

Essa embaixada tem obtido significativo sucesso em implantar entrevistas encomendadas a jornalistas, com altos funcionários do governo dos EUA e intelectuais respeitados. Visitas ao Brasil, de altos funcionários do governo dos EUA seriam excelente oportunidade para pautar a questão para a imprensa brasileira. Outra vez, especialistas e funcionários de outros governos e países que apóiem nossa posição a favor de não se punir quem difame religiões garantiriam importante ímpeto aos nossos esforços.

Essa campanha também deve ser orientada às comunidades religiosas que parecem ter influência sobre o governo do Brasil, quando se opuseram à visita ao Brasil do presidente Ahmadinejad do Irã, em novembro. Particularmente os Bahab e a comunidade judaica, expandidos para incluir católicos e evangélicos e até grupos indígenas e muçulmanos moderados interessados em proteger quem difame religiões [sic].

[assina] KUBISKE


PS do Viomundo: Na época em que foi feito esse comunicado, a Organização das Nações Unidas (ONU) estava para votar uma resolução condenando a “difamação de religião”. Os EUA eram contra. Defendiam que não deveria ser considerado crime difamar religiões e queriam mudar o voto do Brasil, que era pela abstenção. No dia 26 de março de 2009, a ONU aprovou a resolução condenando a “difamação da religião”, como uma violação dos direitos humanos. Desde 1999, essa questão vai e volta à pauta da Comissão de Direitos Humanos da ONU.

(*) NOTA DESTE BLOG: Nove meses antes deste telegrama, fora aprovada a resolução
que condena difamação religiosa, conforme reportagem da Reuters



O Perfil de José Serra Feito pelos Norte-Americanos

22.3.2011 / Fonte: A Pública (por Marcus VF Lacerda)


No começo de 2009, o cônsul-geral americano em São Paulo, Thomas White, ocupou-se de uma tarefa digna de Gay Talese ou Lilian Ross. Tratava-se de um perfil do então governador paulista e nome forte do PSDB na disputa presidencial, José Serra.

O produto da pesquisa é o tema central de mensagem de 11 de fevereiro daquele ano, na qual o diplomata resume a carreira, as posições político-ideológicas e diversos traços de Serra. “Serra é pessoalmente um político muito atípico com peculiaridades e interesses muito particulares”, introduz Thomas White em seu dossiê que caracteriza Serra como um “workaholic”, “insone” e “anti-social”.

O documento mostra o interesse norteamericano em detalhes sobre um dos principais candidados à sucessão de Lula.

O diplomata valeu-se de entrevistas com diversas pessoas próximas a Serra. Dentre elas estão nomes do PSDB como Paulo Renato Sousa e Aloysio Nunes, membros do secretariado serrista como Maria Elena Fuimarães, Cristina Ikonomidis e José Henrique Reis Lobo, o ex-governador Cláudio Lembo, o economista-orientador do Bradesco Honorato Barbosa, o consultor político Thiago Aragão e até Aldo Rebelo do PC do B.

“O grupo foi unânime em sua forte lealdade a Serra, suas descrições francas de algumas de suas qualidades antipáticas e sua dedicação e competência evidente.”, descreve o telegrama.

Thomas White descreve Serra como introvertido e desconfortável em eventos sociais descontraídos onde outros políticos se destacariam.

A inacessibilidade ao tucano também é abordada no texto que nota o hábito de Serra de confirmar sua presença apenas momentos antes do acontecimento. De acordo ainda com o telegrama, Serra teria causado um desconforto para o consulado canadense em 2008 durante a visita da governadora-geral do Canadá, Michaelle Jean, ao Brasil. O então governador paulista teria cancelado uma reunião com a principal representante canadense no exterior um dia antes do encontro.

Interlocutor “positivo” para os EUA

A trajetória de Serra é traçada rapidamente desde a presidência da UNE nos anos 60, passando pelo exílio na Argentina e no Chile. Para White, Serra coloca-se como um sobrevivente do golpe de Pinochet em um artigo que o tucano publicou na revista americana Dissident entitulado “O outro 11 de setembro”. O cônsul ainda sublinha a relativa proximidade de Serra com outros intelectuais anti-militaristas da América Latina .

“Apesar disso, ele continuou como um economista fortemente técnico e nunca caiu em uma crítica simplista tanto ao capitalismo quanto aos Estados Unidos”, pontua o telegrama.

A posição de Serra diante do Estados Unidos é sempre colocada em cheque e contornada em seguida ao longo do texto. “Apesar de sua tendência em manter uma certa distância dos EUA, Serra pode funcionar muito bem como um interlocutor positivo dos Estados Unidos”, relata.

White descreve a política de Serra mais intervencionista e menos ligada ao mercado que a postura tipicamente americana.

Visitas a escolas

White relata o que ouviu do assessor do ex-governador a contar que Serra ia a uma escola pública de São Paulo toda semana, principalmente escolas primárias. Estas visitas eram extra-oficiais e não contavam nem com cobertura da imprensa ou presença de alguém da secretaria de Educação. A escola a ser visitada era mantida em segredo até um dia antes da visita, quando os alunos recebiam uma biografia do então governador. Quem agilizava estas visitas era a secretaria-adjunta de Educação, Cristina Ikonomidis.

Em sala de aula, Serra transforma-se de governador workaholic e antipático em um professor de matemática carismático com os alunos. Fotos levadas por Ikonomidis aos americanos mostram um Serra sorridente e brincalhão entre as crianças. “Serra geralmente cativa os alunos com uma piada, usualmente perguntando o nome da professora e soletrando-o errado propositalmente enquanto o escreve no quadro”, descreve o telegrama.

Serra intervencionista?

Segundo a pesquisa do cônsul-geral, houve um temor no mercado financeiro de que, uma vez sendo presidente, Serra optaria por uma política econômica com maior presença do estado. José Serra já foi um defensor do intervencionismo e suas ações no Ministério da Saúde mostravam um gosto pela presença do estado. De acordo com o telegrama, muitos homens de negócios em são paulo repetiam o chavão “Serra é mais esquerdista que Lula”.

Mas Fernando Honorato Barbosa, economista do Bradesco, disse a White que Serra não teria motivos para tomar medidas intervencionistas uma vez que ele já lidaria juros baixos por razões econômicas. “De qualquer forma, Barbosa admite que até em seu setor no Bradesco existe um debate vigente sobre o quão intervencionista Serra pode ser como presidente”, complementa White no telegrama.



Serra “Buscaria Política Externa Mais Afinada com EUA”

9.3.2011 / Fonte: Natália Viana


Em 18 de dezembro de 2009 o então governador de São Paulo José Serra encontrou-se durante 90 minutos no palácio do governo com o subsecretário para assuntos do hemisfério ocidental do governo americano, Arturo Valenzuela. Serra já era já cotado para ser candidato tucano à presidência em 2010, mas ainda não havia formalizado a candidatura.

Valenzuela saiu do encontro privado com a impressão de que Serra seria um presidente mais afeito aos EUA. “Serra alertou que a corrupção e a radicalização estavam crescendo no partido governante, o PT, e sugeriu que como presidente iria pressionar por uma política externa mais alinhada com os Estados Unidos”, diz o telegrama enviado pelo consulado em São Paulo.

O político tucano criticou a política externa de Lula e propôs-se estar numa posição mais internacionalista caso fosse eleito, criticou a tarifa americana sobre o álcool brasileiro julgando-a “economicamente ilógica” e destacou seu engajamento com o então governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, nas questões climáticas como uma das oportunidades de cooperação.

Serra criticou a participação de Lula na crise em Honduras, responsabilizando o governo brasileiro e o presidente hondurenho deposto Manuel Zelaya de impedirem a resolução do problema.

Sutilmente, Serra deu a entender que os EUA faziam mal ao elogiar Lula. “Ele também avisou que as referências do governo americano a uma 'relação especial' com o presidente Lula não agradam a todos os segmentos do Brasil e que poderiam ser manipuladas pelo PT”, diz o telegrama.

Desinformado

Depreende-se do documento, no entanto, que Valenzuela achou que Serra estava focado demais na política interna brasileira sem prestar a devida atenção aos vizinhos na América do Sul.

A conversa aconteceu pouco menos de um mês depois do chileno assumir a subsecretaria de Assuntos do Hemisfério Ocidental, cargo anteriormente ocupado por Thomas Shannon e que coordena as relações dos EUA com América Latina, Caribe e Canadá. “A presidente Kirchner é esperta e cordial. Se o populismo na Argentina preocupa aos EUA, então Dilma causará preocupação maior”, comparou o candidato tucano à presidência.

Valenzuela visitou países do Cone Sul e na volta aproveitou para fazer uma escala em São Paulo onde realizou uma série de encontros extra-oficiais. “Serra pareceu completamente desinformado de acontecimentos recentes no Cone Sul, incluindo a situação política do presidente paraguaio Lugo”, comentou o telegrama fazendo menção à série de reconhecimentos de paternidade atribuídas ao ex-bispo.

Preocupado com a derrota

José Serra deu a entender a Arturo Valenzuela não estar “firmemente confiante” que fosse ganhar as eleições de 2010. Segundo o tucano, o embate entre os esforços do PT em montar uma base política sólida e o fraco aparato do PSDB justificavam tal descrença.

“O Brasil atinge níveis de corrupção nunca vistos enquanto o PT e seus aliados montam uma máquina eleitoral usando dinheiro público”, teria dito Serra ao subsecretário Valenzuela.



Diplomatas dos EUA Transitavam Facilmente pelo Governo Lula

3.3.2011 / Fonte: Natália Viana


Os últimos documentos revelados pelo Wikileaks mostram a facilidade com a qual os membros das embaixadas americanas têm acesso aos membros do governo, líderes de partidos e importantes figuras do meio empresarial e político.

Os telegramas mostram que dois importantes membros do governo Lula estabeleceram uma estreita relação com a embaixada dos EUA e se declararam dispostos a manter um canal de diálogo aberto. São Hélio Costa, que era Ministro da Comunicação, e Gilberto de Carvalho, então chefe do gabinete pessoal do presidente Lula e atual secretário-chefe da Presidência.

Canal direto com Lula

Telegrama confidencial datado de primeiro de novembro de 2006, logo após a reeleição de Lula, relata um encontro de Gilberto de Carvalho com o embaixador americano Clifford Sobel e o conselheiro político da embaixada.

Carvalho afirmou que, no segundo mandato, Lula iria investir em “relações de qualidade com os tradicionais parceiros” e que para o Brasil crescer seria necessário envolver-se mais intensamente com os Estados Unidos. Apesar da boa notícia, Sobel questionou as críticas que os EUA teriam recebido por funcionários do alto escalão do governo. Carvalho prontamente tranquilizou o embaixador e pediu sua compreensão caso “a retórica durante a campanha tenha ocasionalmente parecido crítica aos Estados Unidos”.

Ao final do encontro, Carvalho teria dado o número de seu telefone pessoal e “os encorajado a contatá-lo diretamente a qualquer momento, se houvesse alguma dificuldade no desenvolvimento das relações entre os dois governos, ou se eles desejassem apresentar alguma questão diretamente ao presidente Lula”.

O documento relata brevemente encontros com o General Jorge Armando Félix, Ministro Chefe do Gabinete de Segurança Institucional, e Luiz Furlan, Ministério do Desenvolvimento. Ambos reafirmaram o interesse em aprofundar a cooperação com os EUA. A receptividade surpreendeu o embaixador: “é intrigante que tenhamos recebido um intenso fluxo constante de fortes sinais dos altos conselheiros de Lula, no dia seguinte à sua vitória. Vamos ficar atento ao que virá”.

Porta aberta no PMDB

Já Hélio Costa se reuniu com o embaixador em setembro de 2009, quando discutiram assuntos diversos desde as eleições presidenciais até a política externa do governo, passando pela área de comunicação.

O então ministro declarou seu desejo de ver as relações entre Brasil e EUA fortalecidas, relembrando os anos que vivera no país, como jornalista correspondente da TV Globo. Costa falou de seus esforços na disseminação do acesso à internet sem fio, “usando muitas empresas americanas no processo”. E explicou o porquê da escolha do padrão japonês para a TV digital ao invés do americano mas garantiu que para o rádio digital, o padrão escolhido seria o americano.

O telegrama, assinado pelo diplomata Philip Chicola, afirma que “Costa foi generoso com o seu tempo e demonstrou evidente interesse em manter um canal aberto de comunicação com o embaixador. Na verdade, ele sugeriu numerosos encontros e jantares com líderes no Senado e do seu partido. Nós vamos potencializar essa disposição para ganhar acesso a outros líderes do PMDB e promover e defender as ações dos EUA na comunicação e em áreas relacionadas”.



Temer também Criticou Colegas que Apoiavam Lula

3.3.2011 / Fonte: Natália Viana


Michel Temer, atual vice-presidente, criticou colegas que apoiavam Lula durante a corrida presidencial de 2006, quando era presidente do PMDB.

Segundo o líder do partido, estes partidários tinham esperanças de ter muitos ministérios num segundo governo do PT. O encontro com o cônsul-geral McMullen aconteceu em 9 de junho, exatos 5 meses depois de um encontro em que Michel Temer criticava a política social de Lula. Temer acreditava que o governo de Lula no segundo mandato penderia mais à esquerda.

Segundo Temer, Lula recompensava mal o trabalho de seus colegas do PMDB que estavam no governo. “Eles dão o cargo para um pemedebista, mas não o controle real do ministério”, reclamou o pemedebista, que acreditava que pastas importantes como Saúde ou Agricultura deveriam ser moeda em uma aliança de governo. Justamente estas duas pastas citadas foram comandadas por dois pemedebistas bastante presentes no segundo mandato de Lula: José Gomes Temporão e Reinhold Stephanes.

Clientelismo

Em comentário anexo ao telegrama, o cônsul-geral reconhece que o controle pelo qual Temer reclama daria ao PMDB “a oportunidade de avançar seu clientelismo político às custas do contribuinte”.

O diplomata americano ainda nota a falta que há no partido de ideologia e plataformas políticas para para formular e implementar uma agenda política coerente. “Tal partido dificilmente está apto à tarefa de prover direção política”, sentenciou McMullen.

Alckmin e Quércia

Temer disse durante a conversa ter visto candidatos vencerem obstáculos maiores do que o candidato tucano enfrentava na época. Para o pemedebista, Alckmin havia realizando um governo honesto, decente e competente em São Paulo desde que assumiu a cadeira após a morte de Mário Covas. Para Michel Temer, o Brasil é um país que pede por grandiosidades e o candidato não havia conquistado nenhum grande feito.

O pemedebista faz uma comparação entre Alckmin e o ex-governador paulista Orestes Quércia, do PMDB. “Um controverso.” – descreve Temer – “No entanto, deixou sua marca no estado em ruas, estradas, prisões e hospitais que construiu”.

Christopher McMullen comenta que muitos acusam Quércia de ser corrupto e aproveita para fazer analogia a outra figura similar da política paulista: Paulo Maluf.



Matarazzo: “É Claro que Alckmin É da Opus Dei”

3.3.2011 / Fonte: Natália Viana


Andrea Matarazzo, reconhecido como “peso-pesado” do PSDB, acreditava que a ligação entre Alckmin e o grupo político de direita Opus Dei era clara, apesar do candidato tucano à presidência sempre negar.

O então secretário de Subprefeituras recebeu o cônsul Christopher McMullen em seu escritório em 14 de junho de 2006.

“Como um católico conservador (“é claro” que Alckmin é membro da Opus Dei, apesar das suas negativas, opinou Matarazzo, apesar de não ser um dos líderes do grupo), Alckmin tem uma certa postura direitista no seu estilo de governar, o que ajuda a explicar por que ele tem o apoio de um segmento tão grande do empresariado”, relata o telegrama.

Nesse momento, o telegrama nota que a conversa é interrompida por um telefonema em que Matarazzo trata rapidamente com um líder GLBT detalhes da parada gay de São Paulo.

Terra de ninguém

O ex-embaixador do Brasil na Itália e ex-chefe da SECOM presidencial de Fernando Henrique Cardoso é identificado como sendo descendente de uma das famílias mais ricas do Brasil. “Passo metade do meu dia nessa terra de ninguém”, disse ele referindo-se ao centro de São Paulo.Matarazzo era, na época, nada menos que subprefeito da região Sé.

Matarazzo mostrava-se insatisfeito com a escolha de seu partido por Alckmin e personifica bem o choque de culturas existente no PSDB mencionado por Lembo quando McMullen o encontrou em março daquele ano.

De acordo com Matarazzo, Serra tinha uma visão nacional, ao contrário de Alckmin que preferia ater-se a uma perspectiva macroeconômica ortodoxa. De acordo com ele ainda, a reeleição de Alckimin para o Palácio dos Bandeirantes foi conquistada devido a méritos de Mário Covas, que já haveria colocado as contas do estado em harmonia. O já falecido ícone do PSDB, confidenciou Matarazzo, teve Geraldo como seu vice a contra-gosto. “Alckmin começou o Rodoanel e não terminou”, ilustrou o secretário.

Matarazzo faz pouco da carreira política de Alckmin que, segundo ele, havia sido prefeito de Pindamonhangaba, deputado federal e vice de Covas. O telegrama observa que o tucano “desatentamente ou por outro motivo” não contabilzou um legislatura como deputado estadual na AL-SP e que nas duas vezes em que Alckmin havia sido eleito para a Câmara Federal, o médico de Pindamonhanagava esteve entre os mais votados do partido.

Serra

Em contraponto a Geraldo, Matarazzo apresenta Serra como um político nacional que já havia sido depudato federal, senador, duas vezes ministros, duas vezes ministro e autor de duas emendas constitucionais. O candidato tucano à presidência em 2002 e 2010 sabia que se Alckmin ganhasse, suas chances de chegar à presidência estariam acabadas aos 64 anos de acordo com Andrea. Diante deste mesmo cenário, o secretário ainda confabula um eventual desligamento de Aécio Neves do PSDB, a fim de nutrir suas aspirações presidenciais.

O baixo-clero do PSDB que apoiava Alckmin teria muita habilidade política na Assembléia Legislativa paulista, mas não em um nível nacional, descreve Matarazzo. Para ele, o “choque de gestão” de Alckmin não significaria nada para o pobre e rural Nordeste. Reforçando suas análises, o magnata apresentou números do crescimento de venda de eletrodomésticos na região.

O telegrama termina com a observação de que, apesar da insatisfação do tucano com a escolha de Alckmin, Matarazzo não mencionou a desistência de Serra frente ao candidato mais jovem mesmo tendo preferência expressiva dentro do partido. Desde que saiu da prefeitura da capital paulista para ser o candidato de seu partido ao governo do estado, havia tornado-se invisível e foi operado de uma hérnia. As pesquisas mostravam que ele seria eleito no primeiro turno e preferiu ser discreto para não abalar o cenário favorável.



A Relação entre Lula e o Setor Empresarial

1.3.2011 / Fonte: Natália Viana


“Em última instância, enquanto Lula não é, e nunca será, o favorito da comunidade empresarial, ele não é mais visto como uma ameaça à estabilidade econômica.” A frase resume as discussões que ocorriam ao final do primeiro mandato de Lula e na véspera das eleições e que agora são reveladas pelo Wikileaks, a partir de um telegrama do Consulado americano de São Paulo, datado de março de 2006 e assinado pelo cônsul McMullen.

O documento aponta que os empresários estavam satisfeitos com a política econômica aplicada por Antonio Palocci, quando Ministro da Fazenda, e acreditavam que se Lula fosse reeleito, não haveria mudanças na área. Mesmo assim, “ele ainda deixa os empresários nervosos”. De acordo com a correspondência diplomática, “o governo Lula dirigiu mais recursos para programas sociais enquanto retém fundos para investimentos. A comunidade empresarial gostaria de ver essas prioridades invertidas”.

Empresariado progressista

Ainda assim, o presidente teria aliados no setor, “embora não muitos”. Como Armando Monteiro Neto, então presidente da Confederação Nacional das Indústrias e deputado federal pelo PTB, que possui uma empresa produtora de açúcar e seria “extremamente dependente dos empréstimos e benefícios governamentais”. Outros apoiadores seriam Antoninho Marmo Trevisan, da Trevisan Auditores e Consultores; Oded Grajew, fundador da fábrica de brinquedos Troll; e Laurence Phi, proprietário de uma empresa processadora de trigo.

“Todos esses são empresários progressistas fortemente conectados às causas sociais”, afirma o documento. “Eles acreditam que o Brasil é um país deficiente de justiça social e que Lula irá mudar isso”.

Já o vice-presidente José Alencar – dono da Coteminas, grande empresa do setor têxtil – teria entrado na aliança “mais por oportunismo político do que por comprometimento com a agenda social de Lula”.

Os bancos também são apontados como apoiadores do Lula e teriam contribuído “generosamente” com o PT. O documento ressalta que “dados recentemente divulgados mostram que os bancos tiveram lucros recordes”.

Pontos críticos

De acordo com o telegrama, o setor empresarial discorda da importância dada pelo governo aos movimentos sociais e critica a proximidade do Brasil com a Venezuela, Cuba e outros governos progressista da América do Sul e também a política externa brasileira, vista como motivada “mais por ideologia do que por interesses econômicos e comerciais”.

Entre os desfechos possíveis para a eleição, o documento aponta um considerado o “mais perigoso”. Nesta opção, Lula seria eleito mas com uma base frágil no Congresso e sem uma forte aliança política, o que dificultaria a governabilidade. A saída encontrada para o impasse seria apelar aos movimentos sociais por apoio e utilizar uma retórica esquerdista e medidas populistas.

Ceticismo

Ainda com todas as ressalvas feitas ao governo Lula, os empresário não estariam completamente seguros que os tucanos fossem atender as suas demandas. Como revela o trecho abaixo:

Embora exista um consenso na comunidade de negócios que o próximo governo tem que enfrentar difíceis problemas de longa data – como a reforma tributária, trabalhista e regulatória – há pouca confiança de que qualquer novo governo (PT ou PSDB) terá a vontade política e a influência para fazer com que a legislação necessária seja aprovada.

Curiosidade

O mesmo telegrama aborda rapidamente a relação dos empresários com o PSDB, que no momento ainda não tinha definido quem seria o candidato da legenda. Alckmin é apontado como amplamente apoiado pelos empresários paulistas, ainda que não fosse conhecido nacionalmente. Já Serra teria criado antipatia em setores empresariais quando era Ministro da Saúde, sobretudo com a indústria farmacêutica, devido à política de medicamentos genéricos, e com a de tabaco. “Na área de economia”, afirma o telegrama, “Serra parece ser mais à esquerda do que Alckmin – ainda mais do que Lula, dizem seus oponentes”.




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#Posté le jeudi 10 mars 2011 00:46

Modifié le mardi 30 janvier 2018 13:14



WikiLeaks: Serra Entregaria Pré-Sal à Exploração Norteamericana

13.12.2010 / Fonte: Correio do Brasil


As petroleiras norte-americanas contavam com o apoio do candidato derrotado à Presidência da República José Serra, para não se submeter às novas regras definidas no marco de exploração de petróleo na camada pré-sal que o governo aprovou no Congresso. A Chevron chegou a ouvir do então pré-candidato favorito à Presidência, José Serra (PSDB), quando estava à frente da presidente eleita, Dilma Rousseff, a promessa de que a regra seria alterada caso ele vencesse. A revelação está em um telegrama diplomático dos EUA, datado de dezembro de 2009, e vazado pelo site WikiLeaks.

“Deixa esses caras (do PT) fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava... E nós mudaremos de volta”, disse Serra a Patricia Pradal, diretora de Desenvolvimento de Negócios e Relações com o Governo da petroleira norte-americana Chevron, segundo relato do telegrama.

O despacho relata a frustração das petrolíferas com a falta de empenho da oposição em tentar derrubar a proposta do governo brasileiro. O texto diz que Serra se opõe ao projeto, mas não tem “senso de urgência”. Questionado sobre o que as petroleiras fariam nesse meio tempo, Serra respondeu, sempre segundo o relato: “Vocês vão e voltam”.

A executiva da Chevron relatou a conversa com Serra ao representante de economia do consulado dos EUA no Rio. O cônsul Dennis Hearne repassou as informações no despacho “A indústria do petróleo conseguirá derrubar a lei do pré-sal?”.

O governo alterou o modelo de exploração – que desde 1997 era baseado em concessões–, obrigando a partilha da produção das novas reservas. A Petrobras tem de ser parceira em todos os consórcios de exploração e é operadora exclusiva dos campos. A regra foi aprovada na Câmara este mês.

O diário conservador paulistano Folha de S. Paulo teve acesso e divulgou os seis telegramas do consulado dos EUA no Rio sobre a descoberta da reserva de petróleo, obtidos pelo WikiLeaks. Datados entre janeiro de 2008 e dezembro de 2009, mostram a preocupação da diplomacia dos EUA com as novas regras. O crescente papel da Petrobras como “operadora chefe” também é relatado com preocupação.

O consultado também avaliava, em 15 de abril de 2008, que as descobertas de petróleo e o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) poderiam “turbinar” a candidatura de Dilma Rousseff, então ministra da Casa Civil. O consulado cita que o Brasil se tornará um “player” importante no mercado de energia internacional. Em outro telegrama, de 27 de agosto de 2009, a executiva da Chevron comenta que uma nova estatal deve ser criada para gerir a nova reserva porque “o PMDB precisa de uma companhia”.

Texto de 30 de junho de 2008 diz que a reativação da Quarta Frota da Marinha dos EUA, na época da descoberta do pré-sal, causou reação nacionalista. A frota é destinada a agir no Atlântico Sul, área de influência brasileira.



Escândalo do Mensalão: Oposição e Governo
Temiam Impeachment de Lula

23.2.2011 / Fonte: Natália Viana


Documentos divulgados hoje pelo Wikileaks revelam como a diplomacia estadunidense acompanhou, em 2005, o escândalo do “mensalão do PT”. São diversas correspondências ao longo do ano relatando com minúcias o andamento do caso.

Um telegrama confidencial de agosto de 2005 – quando a CPI já ocorria e mudanças haviam sido feitas no alto escalão – mostra a preocupação, tanto do governo quanto da oposição, com a estabilidade do país. O texto relata os esforços que estariam sendo feitos para que Lula não sofresse uma crise de legitimidade e um eventual impeachment. Como mostra o seguintes trecho do documento:

De fato, se há alguma “conspiração” em movimento, ela parece não ser das “elites” para afastar Lula do poder, mas sim esforços de importantes figuras políticas e institucionais, de todos os campos, para protegê-lo e poupar o Brasil do trauma nacional que uma crise em espiral – e especialmente um processo de impeachment – traria.

Preocupação generalizada

A correspondência relata ainda que Fernando Henrique Cardoso estaria “profundamente preocupado” com o impacto da crise no país. Outro líder da oposição, Jorge Bornhausen (DEM), também estaria inquieto. O documento revela que o então senador teria ido ao Rio de Janeiro para conversar com a direção do “império de mídia Globo” sobre a necessidade de precaução ao reportar os escândalos. Essa informação vem com a ressalva de que não poderia ser confirmada.

Outra importante figura pública que teria se pronunciado é o atual Ministro da Defesa Nelson Jobim, que ocupava a presidência do Supremo Tribunal Federal.

Foi relatado que o presidente da Suprema Corte, Nelson Jobim, teria dito a interlocutores, nesta semana, que a desilusão que acompanharia um impeachment de Lula – um ícone carismático da democracia brasileira e símbolo de esperança para a população mais pobre – causaria graves problemas sociais e de governança no Brasil nos próximos anos.

A popularidade de Lula

A embaixada estadunidense também estava preocupada com a estabilidade do país. Nos diversos telegramas ao longo de 2005, há comentários sobre a governabilidade. São relatadas diversas pesquisas de opinião sobre a repercussão do escândalo, a popularidade do presidente e do governo, e se a população vinculava ou não Lula ao suposto esquema de corrupção. São recorrentes os comentários sobre como o presidente conseguiu manter sua aprovação popular em um nível alto – apesar de ligeiras baixas – e se desvincular do escândalo.

Leia os documentos, em inglês, aqui



Diplomacia de Lula Irritou Sul-Americanos

18.2.2011 / Fonte: WikiLeaks.org.br


Telegramas secretos da diplomacia americana revelam que, sob o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, países sul-americanos se incomodaram com a liderança brasileira e chegaram a pedir a Washington que “contivesse” as ambições do Brasil na região. Os despachos foram divulgados pelo grupo WikiLeaks. Entre os que solicitaram à diplomacia americana que atuasse contra o aumento da influência do Brasil estão Colômbia, Chile e Paraguai.

Em 11 de fevereiro de 2004, numa conversa entre o então presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, e uma delegação do alto escalão da diplomacia dos EUA, o incômodo com as ambições de Lula ficou claro. “Uribe disse que sua relação com Lula é complicada”, relata o telegrama. O ex-líder de Bogotá e forte aliado de Washington alertou na ocasião para a agenda externa de seu colega brasileiro: “Lula se esforça para construir uma aliança antiamericana na América Latina”, teria dito Uribe.

“Lula é mais pragmático e mais inteligente do que (Hugo) Chávez, mas é conduzido por seu histórico de esquerda e pelo 'espírito imperial' do Brasil para se opor aos EUA”, acusou o ex-presidente colombiano. Em outro trecho, Uribe ainda acusa o presidente brasileiro de não ter cumprido sua promessa de lutar contra o narcotráfico.

Quatro anos mais tarde, as desconfianças em relação a Lula continuariam na Colômbia. Em um telegrama de 2008, o governo americano afirma que foi informado por militares de Bogotá sobre o projeto de criação de um Conselho de Defesa da América do Sul pelo Brasil. “A desconfiança é que seja um projeto, no fundo, de Chávez”, teriam alertado os militares.

Em telegrama de 19 de maio de 2005, a então chanceler do Paraguai, Leila Rachid, queixou-se ao embaixador americano em Assunção, Dan Johnson, sobre o comportamento de seu colega brasileiro, Celso Amorim, e sua ideia de convocar uma cúpula entre países árabes e sul-americanos. Johnson, por sua vez, disse que o evento promoveria “gratuitamente tensões entre a comunidade árabe e judaica no Brasil”. Ele pediu ainda que, na declaração final, elogios ao Sudão fossem evitados.

“Rachid afirmou que o Brasil teve uma 'grande disputa' com vários chanceleres (da América do Sul), incluindo a ministra colombiana (Carolina) Barco e o chileno (Ignacio) Walker, quando Amorim pediu que eles reduzissem as objeções que tinham sobre o Sudão e o processo de paz no Oriente Médio”, descreve o embaixador americano.

Rachid diz que gostaria de falar com a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, sobre “preocupações em relação à política externa e comercial do Brasil”. “Ela (Rachid) estava preocupada com as ambições do Brasil de se tornar uma voz de liderança na região e pediu que os EUA se posicionassem para conter o Brasil”.



Peru Disse que Preferia Hegemonia Brasileira à dos EUA

17.2.2011 / Fonte: Natália Viana


Em 13 junho de 2006, o presidente peruano Alan García visitou o Brasil e foi recebido pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Era a primeira visita de García após sua eleição, em 4 de junho daquele ano – ainda antes, portanto, de sua posse no cargo.

Além da conversa com Lula sobre oportunidades em comércio bilateral, o ex-chanceler Celso Amorim ofereceu um almoço a García no Palácio do Itamaraty. Com a forte demonstração da intenção peruana de se aproximar do Brasil, a recepção acabou se tornando um verdadeiro “festival do amor”, segundo o então subsecretário para assuntos políticos do Ministério do Exterior peruano, Pablo Portugal.

Portugal, que hoje segue carreira diplomática, segundo documento obtido pelo Wikileaks, ao qual o Opera Mundi teve acesso, se encontrou com o embaixador norte-americano em Lima no dia 14 de junho para um café-da-manhã, acompanhado do subsecretário para Américas Luis Sandoval. No despacho confidencial, intitulado “Encontro Lula-Garcia é um festival de amor”, o ex-embaixador James Curtis Struble comenta que Portugal passou a maior parte dos 90 minutos do encontro “relembrando a atmosfera” da reunião entre os dois presidentes.

Portugal disse que Lula e García “retomaram sua “calorosa amizade de duas décadas” e adicionou: “Se a relação entre Toledo e Lula era de 'parceria', a relação García-Lula vai ser um 'casamento'”. Para ele, o 'casamento' seria cimentado com a visita oficial de García ao Brasil no final de agosto. A visita acabaria ocorrendo apenas em novembro.

Etanol e Gerdau

Na visita, os dois conversaram sobre possíveis parcerias, como a estrada interoceânica, a cooperação em programas de erradicação da pobreza, a possibilidade de ajuda do Brasil para o Peru desenvolver etanol e biodiesel e participação brasileira na construção de rodovias e com a Petrobrás no país.

Segundo o despacho, Lula abriu as portas para o grupo Gerdau, observando que o grupo brasileiro estava interessado em comprar a metalúrgica Siderperu. Em 9 de fevereiro de 2011, a empresa brasileira anunciou um investimento de US$ 120 milhões durante os próximos três anos na siderúrgica, depois de reunião com Alan García.

Já García pediu uma visita de Pelé ao Peru para promover atividades esportivas.

“Lula enfatizou que o Brasil não buscava 'hegemonia' através de uma aliança com o Peru, mas via isso como um veículo para unir a América do Sul para que toda a região pudesse virar um ator global em igualdade com a China e a Índia”, relata o documento

Em resposta García teria deixado claro seu apoio à liderança brasileira. “García reassegurou Lula sobre as ambições brasileiras para a liderança regional, dizendo que ele preferia a hegemonia do Brasil à dos EUA”.

Chávez

Em seguida, Portugal enfatizou o “valor” de uma forte relação entre Brasil e Peru “para se contrapor a Chávez” – e disse que o Itamaraty pensava da mesma maneira. “A esse respeito, disse ele, o governo brasileiro, e o Itamaraty em particular, estava muito satisfeito de ver o triunfo de García sobre Ollanta Humala, vendo isso como uma reviravolta muito necessária contra Chávez e a 'restauração do equilíbrio regional'”.

Para Portugal, o Brasil tentava lidar com Chávez ignorando seus arroubos mais agressivos. Mas, para o embaixador James Curtis Struble, essa política tinha “limitações”, já que não havia impedido o venezuelano de “incitar Evo” a nacionalizar bens da Petrobras. Em resposta, Portugual responde que o Peru poderia enfrentar Chávez “quando ele cruzar a linha”, por não ter interesses comerciais no país.

Stuble conclui o documento analisando que García estava “interessado não somente em coordenar com colegas socialistas no Brasil e no Chile, com quem ele sente uma afinidade, mas em projetar liderança vis-à-vis a Venezuela” – o que não significaria uma grande mudança quanto ao seu antecessor em termos de afinidade com os EUA.

O governo de Alan García é visto até hoje como um dos maiores aliados dos EUA na América Latina. Ele tem pedido mais apoio norte-americano no combate ao narcotráfico, e chegou a afirmar que não teria problemas em aceitar tropas norte-americanas no Peru para esse fim.

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#Posté le jeudi 10 mars 2011 00:48

Modifié le jeudi 24 mars 2011 00:17



DEM Minimiza Mensalão de Arruda a Americanos

17.3.2011 / Fonte: Natália Viana


A mensagem em que os americanos descrevem as articulações dos partidos nanicos em torno do nome de Ciro Gomes (artigo abaixo) já fazia menção ao escândalo de Arruda. Naquela época, o DEM já se preparava para expulsar o seu único governador da legenda. Um membro não-identificado do partido resumiu-se a dizer que o incidente ainda era “muito desastroso para se falar sobre agora”.

O nome de José Roberto Arruda era o mais cotado dentro do DEM para ser vice na chapa de Serra. Sua plataforma política no DF pautava-se pela eficácia, a ponto de Arruda proibir o uso do gerundismo no atendimento dos órgãos do GDF. Onyx Larenzoni (DEM-RS) e outros co-partidários disseram a diplomatas americanos que acreditavam que Arruda ficaria no Palácio do Buriti até as eleições de outubro mesmo com todos os processos contra ele e dos esforços em se arrolar um impeachment do governador. A mensagem observa que isto era dito “sem nenhum grau de raiva ou frustração”.

De acordo ainda com o telegrama, a grande preocupação sobre o mensalão do DEM no DF era que três das mesmas empreiteiras envolvidas nas propinas a deputados distritais tinham forte presença em estados governados pela oposição como Minas Gerais e São Paulo. O então senador Gim Argello (PTB-DF) disse aos americanos que duvidava que estas empresas participassem de práticas deste tipo nos outros estados. Notado na mensagem como um “investidor do ramo imobiliário com seus próprios interesses”, Argello descreveu o escândalo de Arruda como algo endêmico ao DF. “A corrupção de Arruda era conhecida entre os empreiteiros da região e isso criou um ambiente onde propinas eram necessárias”, explicou Argello aos americanos.

Em face dos vídeos “parecidos com You Tube” de políticos ligados a Arruda colocando maços de dinheiro em maletas e meias, os americanos avaliaram que a vaga de um vice do DEM na chapa da oposição como nas últimas eleições presidenciais estaria perdida. Em conversa com um oficial político da embaixada, ACM Neto (DEM-BA) confessou que seu partido planejava concorrer com uma plataforma de governo eficaz que “não tinha uma mensagem identificável”.

A possibilidade de uma chapa da oposição sem um vice do DEM era bem vista pelo deputado Bruno Araújo (PSDB-PE). No entanto, Araújo estava preocupado que outros escândalos envolvendo o PSDB viessem à tona, forçando o partido a esmerar-se pela sua imagem de “partido do bom governo”. De acordo com ele, o caso do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) envolvido em um esquema de mensalão em sua campanha para governador de 1998 era “tudo fumaça, nada de fogo”.

Ronaldo Caiado (DEM-GO), então líder do partido na Câmara, já admitia que o escândalo de Arruda atingiria o partido dono das terceiras maiores bancadas na Câmara e no Senado nas eleições. Caiado colocou que o DEM se distinguiria dos demais partidos expulsando Arruda. “Ao contrário do PT, que não fez nada com os envolvidos no Mensalão”, teria dito Caiado. “Licitações estaduais e federais geralmente lançam fundos para contratar empresas mensalmente, com controles fracos para detalhamento e justificativa de itens e gastos, fazendo com que o mensalão seja facilmente o esquema bipartidário favorito de corrupção no Brasil”, descrevem os americanos.



O Embaixador, o PSB e os Nanicos

10.3.2011 / Fonte: Natália Viana


Telegramas revelados pelo WikiLeaks mostra que, antes da campanha presidencxial de 2010, integrantes do PSB conversaram com os representantes americanos.

Em conversa com diplomatas, o governador pernambucano Eduardo Campos do PSB, confirmou presença em um encontro entre Lula, Dilma, Ciro Gomes e outros membros do partido que aconteceria pouco antes da convenção do PT dali a 4 meses. Nesta reunião, o PSB decidiria se desistiria da campanha de seu candidato próprio, Ciro Gomes em favor de Dilma.

No mesmo telegrama, de 9 de dezembro de 2009, outro membro do PSB, o também pernambucano Fernando Bezerra Coelho, considerava Ciro Gomes um forte candidato. Segundo ele ainda, uma coalizão de apoiadores de Ciro poderiam forçar apoio de Lula no caso de Dilma ainda estar em desvantagem a um terceiro candidato. “O governador Eduardo Campos é mais próximo de Lula. Provavelmente ele seria este candidato”, confabulou Bezerra Coelho

Parte do partido, como o senador capixaba Renato Casagrande, do PSB apoiava Ciro Gomes. A diplomática e aquecida disputa entre PT e PSB girava em torno de PP, PDT e PC do B, que somados possuiam pouco mais de 100 cadeiras na Câmara. No entanto, o partido aliado ao governo poderia apoiar um candidato tucano. “Se Aécio Neves lançar-se candidato, a maioria do partido vai apoiá-lo e desistir da campanha de Ciro”, garantiu Casagrande.

Renato Casagrande já fazia movimentos junto aos partidos menores a fim de fortalecer a campanha de Ciro. “A negociação tem sido mais avançada com alguns partidos que com outros”, comentou o político.

Um político do PP não identificado na mensagem já estava advogando a favor de Ciro dentro de sua legenda para que esta cedesse seu tempo de TV no horário eleitoral ao candidato do PSB. Para o contato dos americanos no maior dos partidos nanicos, Ciro Gomes estaria em excelente posição para ganhar os votos do PT de Pernambuco e Ceará (confundido pelos americanos pela capital do estado, Fortaleza) e tirar vantagem da fraqueza do PT na Bahia. “A maioria do partido prefere Ciro, mas ainda não se sabe a repercussão de se romper com Lula”, diagnosticou o contato no PP.

Citado como “deputado do PDT do estado de Goiás”, outro contato da embaixada nos partidos nanicos mostrou-se favorável à idéia docandidato para concorrer contra PT e PMDB. Fato interessante: dentre os deputados goianos na última eleição, nenhum era do PDT.



Nos Bastidores, o Lobby pelo Pré-Sal

13.12.2010 / Fonte: Natália Viana


“A indústria de petróleo vai conseguir combater a lei do pré-sal?”. Este é o título de um extenso telegrama enviado pelo consulado americano no Rio de Janeiro a Washington em 2 de dezembro do ano passado.

Como ele, outros cinco telegramas publicados hoje pelo WikiLeaks mostram como a missão americana no Brasil tem acompanhado desde os primeiros rumores até a elaboração das regras para a exploração do pré-sal – e como fazem lobby pelos interesses das petroleiras.

Os documentos revelam a insatisfação das pretroleiras com a lei de exploração aprovada pelo Congresso – em especial, com o fato de que a Petrobras será a única operadora – e como elas atuaram fortemente no Senado para mudar a lei.

“Eles são os profissionais e nós somos os amadores”, teria afirmado Patrícia Padral, diretora da americana Chevron no Brasil, sobre a lei proposta pelo governo . Segundo ela, o tucano José Serra teria prometido mudar as regras se fosse eleito presidente.

Partilha

Pouco depois das primeiras propostas para a regulação do pré-sal, o consulado do Rio de Janeiro enviou um telegrama confidencial reunindo as impressões de executivos das petroleiras.

O telegrama de 27 de agosto de 2009 mostra que a exclusividade da Petrobras na exploração é vista como um “anátema” pela indústria.

É que, para o pré-sal, o governo brasileiro mudou o sistema de exploração. As exploradoras não terão, como em outros locais, a concessão dos campos de petróleo, sendo “donas” do petróleo por um deteminado tempo. No pré-sal elas terão que seguir um modelo de partilha, entregando pelo menos 30% à União. Além disso, a Petrobras será a operadora exclusiva.

Para a diretora de relações internacionais da Exxon Mobile, Carla Lacerda, a Petrobras terá todo controle sobre a compra de equipamentos, tecnologia e a contratação de pessoal, o que poderia prejudicar os fornecedores americanos.

A diretora de relações governamentais da Chevron, Patrícia Padral, vai mais longe, acusando o governo de fazer uso “político” do modelo.

Outra decisão bastante criticada é a criação da estatal PetroSal para administrar as novas reservas.

Fernando José Cunha, diretor-geral da Petrobras para África, Ásia, e Eurásia, chega a dizer ao representante econômico do consulado que a nova empresa iria acabar minando recursos da Petrobrás. O único fim, para ele, seria político: “O PMDB precisa da sua própria empresa”.

Mesmo com tanta reclamação, o telegrama deixa claro que as empresas americanas querem ficar no Brasil para explorar o pré-sal.

Para a Exxon Mobile, o mercado brasileiro é atraente em especial considerando o acesso cada vez mais limitado às reservas no mundo todo.

“As regras sempre podem mudar depois”, teria afirmado Patrícia Padral, da Chevron.

Combatendo a lei

Essa mesma a postura teria sido transmitida pelo pré-candidtao do PSDB a presidência José Serra, segundo outro telegrama enviado a Washington em 2 de dezembro de 2009.

O telegrama intitulado “A indústria de petróleo vai conseguir combater a lei do pré-sal?” detalha a estratégia de lobby adotada pela indústria no Congresso.

Uma das maiores preocupações dos americanos era que o modelo favorecesse a competição chinesa, já que a empresa estatal da China, poderia oferecer mais lucros ao governo brasileiro.

Patrícia Padral teria reclamado da apatia da oposição: “O PSDB não apareceu neste debate”.

Segundo ela, José Serra se opunha à lei, mas não demonstrava “senso de urgência”. “Deixa esses caras (do PT) fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava... E nós mudaremos de volta”, teria dito o pré-candidato.

O jeito, segundo Padral, era se resignar. “Eles são os profissionais e nós somos os amadores”, teria dito sobre o assessor da presidência Marco Aurelio Garcia e o secretário de comunicação Franklin Martins, grandes articuladores da legislação.

“Com a indústria resignada com a aprovação da lei na Câmara dos Deputados, a estratégia agora é recrutar novos parceiros para trabalhar no Senado, buscando aprovar emendas essenciais na lei, assim como empurrar a decisão para depois das eleições de outubro”, conclui o telegrama do consulado.

Entre os parceiros, o OGX, do empresário Eike Batista, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e a Confederação Naiconal das Indústrias (CNI).

“Lacerda, da Exxon, disse que a indústria planeja fazer um 'marcação cerrada' no Senado, mas, em todos os casos, a Exxon também iria trabalhar por conta própria para fazer lobby”.

Já a Chevron afirmou que o futuro embaixador, Thomas Shannon, poderia ter grande influência nesse debate – e pressionou pela confirmação do seu nome no Congresso americano.

“As empresas vão ter que ser cuidadosas”, conclui o documento. “Diversos contatos no Congresso (brasileiro) avaliam que, ao falar mais abertamente sobre o assunto, as empresas de petróleo estrangeiras correm o risco de galvanizar o sentimento nacionalista sobre o tema e prejudicar a sua causa”.



Wikileaks: Brasil Prende Terroristas em Segredo

29.11.2010 / Fonte: Revista Época


Documento revelados pela Wikileaks nesta segunda-feira (29) - como parte do vazamento de telegramas confidenciais das embaixadas americanas -, afirmaram que o governo brasileiro, embora seja relutante em assumir essa posição, trabalha em parceria com os Estados Unidos para prender terroristas no país. Segundo as informações, a Polícia Federal, a Receita Federal e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) trocam informações com agências americanas.

“O governo brasileiro é um parceiro no combate ao terrorismo e atividades relacionados com o terrorismo. No entanto, os níveis mais altos do governo brasileiro, particularmente o Ministério das Relações Exteriores, são extremamente sensíveis a quaisquer afirmações públicas de que há terroristas no Brasil”, afirma um telegrama secreto enviado da embaixada americana em Brasília no dia 8 de janeiro de 2008.

De acordo com o telegrama, “nos últimos anos, a Polícia Federal prendeu vários indivíduos suspeitos de financiar terrorismo”, mas essas prisões foram feitas com acusações envolvendo drogas e problemas alfandegários. O documento também afirma que o Brasil participa "relutantemente" de reuniões anuais com EUA sobre a segurança na fronteira com a Argentina e o Paraguai.

O telegrama cita dois exemplos. Em 2007, a PF teria prendido um sunita suspeito de envolvimento com terrorismo em Santa Catarina sob acusação de entrar no país sem declarar fundos. A operação Byblos, que no mesmo ano desarticulou uma quadrilha que falsificava documentos de nacionalidade brasileira para cidadãos árabes, também é citada como exemplo de combate ao terrorismo.

Em um telegrama mais recente, de 31 dezembro de 2009, uma diplomata cita como exemplo do trabalho brasileiro contra o terrorismo a prisão de um integrante da Al Qaeda em São Paulo. O libanês “Senhor K.” foi detido sob acusação de racismo em uma investigação sobre células nazistas, mas segundo o documento da embaixada americana, ele coordenava uma célula de comunicação e recrutamento da Al Qaeda em São Paulo.

Um outro documento, de 5 de maio de 2005, fala de um almoço entre o general Jorge Armando Félix, ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, e o então embaixador americano John Danilovich, que ficou no cargo até 2006. Felix teria dito que era importante que as operações fossem “devidamente embalados de forma a não refletir negativamente na orgulhosa e bem-sucedida comunidade árabe no Brasil”.

A WikiLeaks obteve 1.948 documentos, dos quais apenas seis já foram divulgados. Segundo o site da organização, os telegramas mostram “como os diplomatas americanos realmente veem o Brasil” e “como a embaixada faz lobby pelos interesses dos EUA, desde petróleo até a venda de equipamentos militares”.



WikiLeaks: EUA Diz que Brasil Disfarça Prisão de Terroristas

29.11.2010 / Fonte: Terra.com.br


O site WikiLeaks, especializado na publicação de documentos confidenciais, divulgou que, para os Estados Unidos, o Brasil disfarça a prisão de terroristas. O relato foi feito de maneira secreta em 8 de janeiro de 2008 pelo então embaixador dos EUA em Brasília, Clifford Sobel. Essa informação faz parte de um lote de 1.947 telegramas produzidos pela diplomacia norte-americana durante a última década, em Brasília. A organização WikiLeaks vai divulgá-los gradualmente a partir desta semana. Tratam de possíveis ações de ativistas de origem árabe no País. As informações são do jornal Folha de S. Paulo.

Os telegramas não listam suspeitos de terrorismo que teriam sido detidos pela polícia no Brasil. Há, entretanto, uma menção direta a dois casos já revelados com exclusividade pelo jornal. Os documentos da diplomacia dos EUA citam a ligação de um libanês preso em abril de 2009 e acusado de ter ligações com o grupo Al Qaeda. A outra menção é sobre uma operação da PF em Santa Catarina, quando foi presa uma pessoa suspeita de ligações com extremistas sunitas. Em dois trechos dos telegramas há menções críticas à então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. O assunto é a inexistência de legislação no Brasil para tipificar atos terroristas -algo pelo qual os EUA fazem forte lobby em vários países. Dilma é apresentada como a responsável por ter impedido o envio de uma proposta de lei antiterror ao Congresso.




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#Posté le jeudi 10 mars 2011 00:48

Modifié le vendredi 18 mars 2011 00:49

 
Greenhalgh e os Diplomatas

5.8.2011 / Fonte: A Pública


Dentre os cerca de 3 mil documentos referentes ao Brasil publicados pelo WikiLeaks há muitos que não receberam a atenção devida, mas são importantes para compreender a visão americana sobre o país na última década.

É o caso de três documentos que narram encontros de membros do corpo diplomático americano com Luiz Eduardo Greenhalgh, que já foi deputado federal, vice-presidente da secretaria de relações internacionais do PT e vice-prefeito de São Paulo.

Greenhalgh teria recebido três representantes do consulado em São Paulo para um café da manhã em seu apartamento em abril de 2006 e mantido pelo menos mais um encontro em 2007, no qual foi visto pelos diplomatas como um “informante”, tradução livre para o termo “insider”, em inglês.

Procurado pela Pública, Greenhalgh, hoje de volta a seu escritório de advocacia, negou ter mantido reuniões com oficiais políticos do Consulado dos EUA em São Paulo “nem em 2007 nem em qualquer tempo” – e acusou o WikiLeaks de “propagar fofocas”: “Sempre que estive nas cercanias do Consulado ou da Embaixada dos Estados Unidos foi para participar de atos de protestos”.

Primeiro encontro

Um documento enviado a Washington em 28 de abril de 2006 narra um café da manhã no seu apartamento, no centro de São Paulo. O encontro, feito a seu convite, teria durado 90 minutos e contado com a presença da sua sócia, a freira católica americana e também advogada Michael Mary Nolan, além da sua assistente política Miraci Astun.

Greenhalgh estava, segundo o documento, “relaxado e falante”, tendo rememorado episódios da ditadura – o que o então cônsul-geral Christopher MacMullen classificou de “histórias de guerra”.

De acordo com o relatório, ao ser inquirido sobre mecanismos de financiamento de campanha, Greenhalgh respondeu que, na sua última candidatura para deputado, ele havia declarado formalmente despesas de R$ 600 mil.

Segundo o relato, ele teria dito então que muitos empresários estavam relutantes em aparecer nas listas de contribuições e faziam doações em espécie ou em serviços como transporte e impressão de flyers.

“Greenhalgh estima que suas verdadeiras despesas com campanha fossem próximas a R$ 720 mil. Quando ele declarou os R$ 600 mil, segundo disse, as pessoas comentaram como a quantia era alta, mas isso durou apenas um dia ou dois. E fazendo uma declaração assim plausível, ele se imunizou contra acusações de irregularidades no financiamento de campanha”, prossegue o relatório.

Ao Tribunal Superior Eleitoral, Greenhalg declarou valores que não condizem com o relato do consulado americano. Na campanha eleitoral de 2002, afirmou ter utilizado R$ 215.161,00. Na de 2006, que foi concluída após o encontro em questão, declarou ter gasto R$ 865.363,00.

No mesmo encontro, ele teria dito que “todo mundo pratica caixa dois” mas haveria “maneiras éticas e não éticas de fazer isso”. Por exemplo, alguns candidatos teriam declarado gastos de R$ 150 mil – o que “não daria para eleger nem um vereador em Itagui” – quando arrecadaram três vezes este valor.

O texto diz ainda que Greenhalgh avaliava que a reeleição de Lula não estava garantida “de jeito nenhum”. Lula estaria decidido a fazer a elite “o engolir” – e haveria um sentimento mútuo de ódio. Para o advogado nem Lula nem o seu governo tinham novos programas ou ideias – ambos estariam paralisados desde o escândalo do mensalão.

Greenhalgh também via Lula cada vez mais isolado, já que muitos dos antigos amigos do partido haviam saído do governo. Por isso, o ex-presidente estaria se tornando “cativo da República do Rio Grande do Sul”, liderada por Dilma Rousseff e Tarso Genro, segundo o documento.

A conversa também chegou ao caso de Celso Daniel, prefeito petista de Santo André assassinado em 2002. Tanto Greenhalgh quanto Nolan afirmaram que se tratava de um crime comum e que a cobertura da imprensa estava errada. Para Greenhalgh, os seqüestradores entraram em pânico ao descobrir que se tratava de um “VIP”.

MacMullan descreve Greenhalgh como um político sério, mas que “não é admirado universalmente”, relembrando acusações de corrupção durante seu mandato com vice-prefeito de Luiza Erundina e de tentar encobrir a morte de Celso Daniel. “Dito isso, suas observações sobre os problemas do partido e de Lula são especialmente penetrantes e relevantes”.

Segundo o documento, Greenhalgh falou também do MST, a quem seu escritório representava na época. Ele disse que costumava evitar críticas ao movimento, mas mudou de postura depois da ocupação de propriedade da Aracruz celulose em março de 2006, que causou danos estimados em cerca de 400 mil dólares à companhia.

Na época, o advogado criticou o movimento através de uma declaração pública.

Segundo encontro

A missão americana no Brasil acompanha de perto das ações do MST, como mostrou uma série de documentos publicados pelo WikiLeaks desde dezembro do ano passado.

No abril vermelho de 2007, por exemplo, a embaixada avaliou que houve “muito teatro e pouca substância”, com o uso de “retórica estridente mas pouca destruição de propriedade no ano passado”.

“Os líderes do MST tomaram uma decisão consciente de aumentar o tom dos seus ataques contra o presidente Lula, que era considerado, se não exatamente um deles, pelo menos um simpatizante e protetor do movimento”, avalia documento de 5 de maio daquele ano.

Nele, Greenhalgh é chamado de “informante”, tradução livre para “insider” e mencionado como uma fonte que deve ser protegida.

Segundo o relato, em reunião no dia 20 de abril com oficiais políticos do consulado de São Paulo, Greenhlagh afirmou que o MST estava sendo hipócrita ao manter um tom elogioso com o governo em privado em busca de apoio e financiamento, mas ao mesmo tempo confrontar o governo com retórica agressiva em público.

Citando de maneira indireta o conteúdo da conversa, o documento, também assinado por Christopher McMullen, hoje embaixador em Angola, diz que o ex-deputado teria participado de reuniões entre o MST e o governo Lula durante o primeiro ano de mandato, nas quais os dois lados teriam negociado um “modus vivendi”.

O governo teria, segundo a avaliação de Greenhalgh, mantido sua parte do acordo – garantindo financiamento a ONGs que apóiam ao MST, ou ao próprio movimento, além de realizar novos assentamentos – mas o movimento manteve uma postura de confronto e retórica agressiva.

Por isso Greenhalgh teria decidido se afastar do MST, fator que é citado como um dos motivos para a sua derrota na disputa para a reeleição à Câmara em 2006.

Além disso, segundo o documento, houve impacto no aumento da influência da ex-senadora e atual vereadora de Maceió Heloísa Helena e do partido PSOL sobre os sem-terra.

Procurado pela Pública, o ex-deputado disse que seu nome foi usado “indevidamente” pela comunicação diplomática para “dar mais peso à idéia da direita de criminalizar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra”.

“Sou um militante permanente no combate às tentativas de criminalização dos movimentos sociais. Portanto, o e-mail diz exatamente o contrário do que eu penso”, afirmou.

Terceiro documento

Um terceiro documento, de 5 de junho de 2007, volta ao tema da derrota eleitoral de Greenhalgh, apontando outros fatores.

O documento não deixa claro se houve um novo encontro entre o pessoal do consulado e o ex-deputado, mas descreve que ele teria creditado sua derrota eleitoral também ao seu apoio à reforma da previdência, que desagradou aos aposentados, e ao escândalo do mensalão.

Diz o relato que Greenhalgh afirmou ter sido convidado a assumir o cargo de ministro na Secretaria Nacional de Direitos Humanos, mas não aceitou porque Paulo Vanucchi, que ocupava a pasta, não abriria mão de ficar pelo menos mais seis meses.

Mais uma vez, à Pública, Greenhalgh negou ter dito isso. “Apoiei o ministro Paulo Vanucchi abertamente, em todas suas propostas, especialmente, àquela de criar a Comissão da Memória e da Verdade”.

O documento continua com uma longa análise sobre o ex-presidente Lula. Greenhalgh diz que até a campanha de 2006, Lula sempre havia sido o “talento” ou a “estrela” do PT, tendo sempre alguém nas sombras que era o gerente, ou operador político – seja José Genoíno, José Dirceu ou Antônio Palocci.

Porém, ao ser forçado a praticamente coordenar a própria campanha, Lula teria começado a “dirigir a orquestra e ao mesmo tempo cantar no papel da ópera”. Enquanto Berzoini, de volta ao PT era visto como um líder fraco e aquiescente e Dilma Rousseff como mais técnica que política, Lula estaria fazendo seus próprios acordos políticos – e se distanciando do PT.

Segundo o documento, para Greenhlagh Lula estaria se distanciando do PT e pensando em apoiar um candidato não-petista em 2010.

Perguntado sobre um possível retorno de Lula em 2014, Greenhalgh explicou que a troca de Luiz Marinho por Carlos Lupi no Ministério do Trabalho, teria aproximado o ministério da Força Sindical, em detrimento da aliada histórica, CUT. Essa alienação da base aliada seria uma prova de que Lula não tinha planos para um futuro na política.

No comentário final sobre o encontro com Greenhalgh, MacMullen comenta que a sua avaliação parece acertada em muitos aspectos, mas que às vezes ele “dá a Lula mais crédito do que ele merece”. “A única grande iniciativa política que surgiu nos primeiros cinco meses do segundo mandato foi o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)”.

À Pública, Greenhalgh afirmou: “em 2007, eu já não era deputado federal, já tinha retornado às minhas atividades como advogado, em São Paulo, e já tinha me afastado de reuniões políticas”. Clique aqui para ler a resposta na íntegra.

Todos os documentos da embaixada americana e consulados no Brasil foram publicados pelo WikiLeaks em 11 de julho, estando à disposição de pesquisadores, jornalistas e internautas no site www.wikileaks.org.
 



Wikileaks: Para Cônsul, Crise Econômica e Eleições
Ampliaram Influência de Sindicatos no Brasil

9.3.2011 / Fonte: Natália Viana


Na análise da estrutura diplomática dos Estados Unidos no Brasil, os sindicatos viram sua influência crescer nos oito anos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva. A superação da crise econômica de 2008-2009 e a perspectiva das eleições presidenciais indicavam expansão dessa ascendência, ainda na visão dos estadunidenses em missão no país.

Em telegrama do quinto lote vazado pelo Wikileaks para blogues, Thomas White, cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo, relata encontros entre Ron Kirk, representante comercial do governo Barack Obama, e membros de sindicatos e centrais sindicais. O documento é datado de 13 de outubro de 2009, pouco menos de um mês depois da visita de Kirk ao país, em 16 de setembro.

Apesar dos atuais desafios econômicos globais e de uma rodada de greves recentes nos bancos, indústria automotiva e nos Correios, o sentimento expresso pelos sindicalistas no contato com Kirk e em reunião posterior (de follow-up) no consulado, demonstrou que, sob o governo Lula os sindicatos organizados tiveram sua voz sendo ouvida em questões sociais, políticas e econômicas. “À medida que o Brasil sai da crise econômica e move-se para eleições nacionais em 2010, os sindicatos terão maiores oportunidades para expandir sua influência”, diz o texto.

Quem participou da reunião, na ordem elencada pelo telegrama, foi

■ Ivan Gonzalez, coordenador político da Confederação Sindical das Américas (CSA) – à qual são filiadas CUT, Força Sindical e UGT

■ Braz Agostinho Albertini, presidente da Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado de São Paulo (Fetaesp)

■ João Carlos Goncalves, o Juruna, secretário geral da Força Sindical

■ Ortelio Palacio Cuesta, secretário de assuntos internacionais da Força Sindical

■ Lourenco Ferreira do Prado, vice-presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT)

■ Caninde Pegado, secretário Geral da UGT

■ Maria Silvia Portela de Castro, assessora internacional da CEntral Única dos Trabalhadores (CUT) – “Sole Center of Workers”, na tradução livre; e

■ Brian Finnegan, diretor para o Brasil do Centro de Solidariedade da AFL-CIO.

Protecionistas, mas limpinhos

A imagem não é fácil de ser imaginada, sindicalistas na mesma mesa com um representante comercial dos Estados Unidos. Sem nenhuma reivindicação nem qualquer belicosidade no ar. Mas é assim que é descrito o encontro.

Os sindicalistas no Brasil têm, na definição de White, “visões protecionistas/pró-política industrial”. No entanto, ainda segundo o cônsul, eles mostraram-se dispostos a encontrar e se envolver com o representante comercial – “um sinal que vemos como positivo”, relata White.

Na perspectiva da embaixada, o contato entre o membro do governo dos EUA e os sindicalistas foi quase toda positiva, com exceção de algumas demandas por saber mais sobre a política de Obama para a área comercial.

De olho na cana

A inclusão do representante da Fetaesp, um dos sindicatos relacionados a trabalhadores rurais do setor sucroalcooleiro, pode indicar interesse comercial dos Estados Unidos sobre a questão. As denúncias internacionais de superexploração dos boias-frias são motivo de preocupação dos usineiros, a ponto de a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Única) ter assinado um protocolo com garantias de fim da intermediação de mão de obra.

O etanol produzido do milho é um concorrente internacional do obtido a partir da cana. O impacto social do cultivo da cana (além do dano relacionado às queimadas para permitir a entrada dos trabalhadores no corte) sempre aparece entre os aspectos negativos do álcool combustível produzido no Brasil. Em telegrama divulgado anteriormente, há menção à informalidade na contratação dos boias-frias.

No telegrama em questão, relata-se que Albertino considera que a forma preferida por empregadores para a remuneração, o pagamento por peso cortado – e não por hora trabalhada –, é um dos vilões. O texto cita leis estaduais e acordos entre usineiros comprometendo-se a mecanizar toda a produção até 2014 e a consequente onda desemprego de trabalhadores de baixa qualificação profissional.

“Expressando a frustração de alguns dos cortadores (de cana), ele (Albertino) reclamou: 'há mais leis regulando a proteção dos animais criados na pecuária do que dos cortadores de cana'”, completa o cônsul.

Parceria

No final da conversa, tanto Juruna quanto Silvia Portela teriam cogitado a possibilidade de a estrutura consular dos EUA oferecer, em algum tipo de parceria com os sindicatos ou com as centrais sindicais, cursos de inglês ou programas de intercâmbio para jovens em cursos profissionalizantes. Nenhuma resposta consta no documento. Mas mostra que o pessoal não perde tempo.



Argentina Alertou EUA sobre Programa Nuclear Brasileiro

10.2.2011 / Fonte: WikiLeaks.ch


As presidentas do Brasil, Dilma Rousseff, e da Argentina, Cristina Kirchner, assinaram no final de janeiro um acordo para a construção de dois reatores nucleares de pesquisa - um em cada país. O acordo foi mais um sinal de que, neste assunto, os dois países compartilham muitas posições e interesses.

Mas a visão de que o Brasil é um aliado não é unânime dentro do governo argentino, de acordo com documento enviado pela embaixada americana em Buenos Aires a Washington em 24 de dezembro de 2009.

Na época, o diretor encarregado de não proliferação nuclear no Ministério do Exterior argentino tratou do programa nuclear brasileiro com representantes dos EUA, dizendo que a Argentina mantém “alerta amarelo” em relação aos projetos do sócio do Mercosul e que os brasileiros “escondem tecnologia, como centrífugas”, dos inspetores. Além disso, Gustavo Ainchil revelou que a Argentina tem um plano no caso do Brasil resolver desenvolver armas nucleares.

O documento faz parte de uma série de telegramas do WikiLeaks que revelam o que autoridades latino-americanas pensam sobre o Brasil. Os despachos foram consultados por esta repórter e o Opera Mundi vai publicá-los nos próximos dias.

Segundo o despacho da embaixada de Buenos Aires, a reunião dos representantes argentinos com o conselheiro político da embaixada, Alex Featherstone, sobre o programa nuclear brasileiro aconteceu no dia 10 de dezembro de 2009.

A iniciativa da reunião partiu dos americanos, depois que o embaixador argentino em Brasília procurou a embaixada dos EUA para reclamar do Brasil. Duas semanas antes, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad visitara o Brasil.

De acordo com o relatório da embaixada, estiveram na reunião Gustavo Ainchil, diretor da Direção de Segurança Internacional, Assuntos Nucleares e Espaciais do Ministério das Relações Exteriores (Digan), seu subdiretor Alberto Dojas e uma funcionária do ministério.

Para o Engenheiro Naval e Nuclear Leonam dos Santos Guimarães, que assessora a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), as preocupações de Gustavi Ainchil são uma postura isolada. “Se existissem 'apreensões da Argentina', elas deveriam estar sendo discutidas e resolvidas dentro dos canais de comunicação estabelecidos pelo Regime Regional de Salvaguardas em vigor nos dois países, foro adequado para isso”, diz ele.

Leonam avalia que as preocupações são infundadas, já que além do Brasil ter assinado o tratado de não-proliferação, a Constituição Federal veda quaisquer usos não pacíficos da energia nuclear em território nacional. “Dispositivo constitucional similar somente existe na Nova Zelândia”, diz ele. (leia a entrevista completa)

Já o físico José Goldemberg, ex-ministro e ex-secretario de Estado, especialista em energia, acredita a postura brasileira alimenta esse tipo de preocupação nos países vizinhos, ao não assinar o protocolo adicional do Tratado de Não Proliferação de Armas Atômicas. “A recusa da Argentina e do Brasil alimenta esse sentimento”, diz. “Ficamos numa posição próxima da posição do Irã”.

"Todo o time"

“A participação de todo o time do Digan reforça a impressão da embaixada de que os argentinos haviam decidido de antemão compartilhar uma mensagem de preocupação com o governo americano”, diz o despacho enviado ao Departamento de Estado.

O diretor da Digan começou dizendo que recentes atitudes do Brasil haviam “chamado a atenção” da Argentina. “A recepção do presidente iraniano Ahmadinejad foi especialmente preocupante para a Argentina, dadas as suas questões com o Irã”.

A decisão de abrir uma missão diplomática na Coréia de Norte e a recusa brasileira em assinar o protocolo adicional de não proliferação nuclear, que permite inspeções nucleares com curto aviso prévio e em instalações não declaradas ela AIEA, também seriam motivo de preocupação.

Em seguida, Ainchil disse ao representante americano que o Brasil “esconde certas tecnologias nucleares, como centrífugas” dos inspetores argentinos da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC), um organismo binacional responsável por verificar o uso pacífico dos materiais nucleares.

Tais sinais são vistos pela Argentina como um “alerta amarelo”. Para os argentinos, o Brasil se equipara à Alemanha, ao Japão, e à Coreia do Sul, países que “poderiam desenvolver e detonar bombas nucleares em pouco tempo se quisessem”, mas que mantêm compromissos internacionais que os impedem de fazer isso.

Para não encostar o vizinho na parede, o que seria “contraprodutivo”, o governo argentino decidiu também não assinar o protocolo adicional, segundo Ainchil.

Navio quebra-gelo nuclear

O diretor do Digan reclamou ainda das recentes compras de armamentos pelo Brasil. Fez comparações com o Chile, que comprara armamentos, mas, ao mesmo, deu sinais positivos retirando as minas terrestres que mantinha na fronteira com a Argentina. Para Ainchil, de acordo com o documento, em relação ao Brasil, “é preciso contar com os acordos internacionais de não proliferação.”

Na conversa, o diretor da Digan teria afirmado que, caso o Brasil venha a desenvolver a bomba nuclear, a Argentina procuraria se posicionar fazendo avançar seus programas na área, mas com fins pacíficos. “A Argentina iria escolher um caminho de desenvolver e empregar tecnologia nuclear pacífica avançada para demonstrar capacidade, sem de fato desenvolver armas nucleares”, relata o despacho. Ele mencionou como um provável modo de mostrar esta capacidade a construção de um navio quebra-gelo nuclear.

Segundo o despacho, o governo argentino via com alívio a transição presidencial em 2011. Ainchil teria sugerido que, embora a Argentina mantivesse “respeito” pelo presidente Lula, “a popularidade sem precedentes de Lula e seu desapego de fim de mandato a considerações políticas haviam permitido assumir riscos na política externa e de defesa”.

Já o sucessor fugiria de medidas controversas, inclusive na relação com o Irã. Por isso, Ainchil sugeriu que os EUA procurassem os candidatos Dilma Rousseff e José Serra para conversar sobre a adesão brasileira ao protocolo adicional da AIEA.



Afinal, Quem São Esses Embaixadores?

Finalmente consegui fazer uma reportagem que queria há muito tempo: um perfil dos embaixadores que assinam os telegramas do WikiLeaks e de como funciona a diplomacia americana. Uma reportagem de fundo, mais que necessária para quem se interessa por ler os documentos. Fiz a reportagem em parceria com a excelente Marina Amaral. Abaixo, a íntegra do texto

por Natália Viana, 14.3.2011


O Brasil do embaixador Clifford Sobel é o sonho de qualquer empresário americano. Se vai à Bahia é recebido por baianas em roupas típicas e termina o dia tomando champagne na casa de Nizan Guanaes. No Sergipe é condecorado com a ordem de Aperipê e deixa-se fotografar dançando e tocando pandeiro ao lado do governador Marcelo Déda. Coleciona histórias de pescarias no Pantanal e aventuras na Amazônia para contar nas rodas de negócios em Belo Horizonte. Sente-se “em casa” em São Paulo, “lembra Nova York”, onde o embaixador faz palestras e reuniões e janta no Fasano. A mulher, Barbara, “loves the Carnival”, passados em camarotes oficiais no Recife, Salvador e no “lindo Rio”, como diz Sobel à revista Caras. Nos 9 primeiros meses de Brasil, conta à revista, o casal visitou onze Estados brasileiros e abrilhantou tantas festas que o colunista Ancelmo Góis chegou a inventar uma expressão para se referir a eles: Party Rice, ou arroz de festa.

Na casa do embaixador em Brasília, que Clifford ocupou entre 2006 e 2009, os convidados se encantam com a elegância agradável das recepções e cerimônias, e Sobel marca jantares e reuniões sigilosas com as fontes cultivadas na animada vida social. O senador Heráclito Fortes (DEM-Piauí), por exemplo, estivera com ele no camarote do governador Sérgio Cabral, no Rio de Janeiro, durante o carnaval. Meses depois, tomou a iniciativa de lhe telefonar na manhã daquele 5 de novembro de 2007 para pedir uma reunião “urgente” sobre um assunto que ele “não podia discutir por telefone”.

Ao embaixador e seu assessor militar, o presidente da Comissão de Relações Internacionais e Defesa do Senado disse que havia uma conspiração entre Irã, Rússia e Venezuela para disseminar ideologia antiamericana e armar os governos e movimentos “populistas” da América do Sul em território brasileiro. E instou para que os Estados Unidos reagissem, sugerindo uma parceria com as indústrias de armas do Brasil e da Argentina para “não atrair publicidade ligando o governo americano ao incremento da venda de armas”.

Em novo encontro, este no dia 28 de março de 2008, o senador o alertou sobre uma guerrilha similar às Farc que estaria atuando em Rondônia, a Liga dos Camponeses Pobres (LCP), “com acesso à tecnologia russa ou iraniana”, e falou sobre uma insólita infiltração terrorista estrangeira através da ONG Cepac, ligada, segundo ele, a uma “facção trotskista do PT”, que estaria atuando no seu Estado, o Piauí.

“Fortes, mais do que a maioria, está prestando atenção ao que considera ameaças emergentes dentro e fora do Brasil. Suas preocupações sobre a LCP e a Cepac parecem válidas, com base nas informações de que ele dispõe, mas nós não temos informações suficientes para avaliar a acuidade e a seriedade da situação”, escreveu Sobel a Washington.

A frase vem de apenas um dos 250 mil documentos diplomáticos vazados pelo WikiLeaks. Quase 3 mil se referem ao Brasil – 63 despachos do departamento do Estado e 2919 telegramas enviados entre 2002 e 2010 (1947 provenientes da embaixada em Brasília e 909 dos consulados de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife). Entre esses documentos, apenas cerca de 1/5 são classificados – 468 são confidenciais e 73, secretos

Comentários picantes

Divertidos, absurdos, curiosos, e até sofisticados na visão de alguns especialistas, os telegramas constroem uma narrativa dos bastidores das relações bilaterais durante todo o governo Lula, do ponto de vista dos representantes americanos. Parte dos relatos de campo ou relatórios internos – como são chamados pelos diplomatas – surpreenderam pela superficialidade, baseados em fofocas, fontes duvidosas e análises acríticas do material publicado pela imprensa brasileira.

“Os americanos são informais, é o estilo deles, mas essa troca mais ou menos franca de informações faz parte do cotidiano diplomático de muitos países. O objetivo é transmitir as percepções do embaixador e de outros funcionários graduados aos que traçam a política externa em Washington”, explica o ex-ministro e ex-embaixador brasileiro nos Estados Unidos, Rubens Ricúpero.

Por isso, é difícil determinar o peso desses telegramas nas decisões tomadas pelo Departamento do Estado, Casa Branca e Senado, os órgãos que comandam oficialmente a política externa americana. Para alguns especialistas, o valor dos relatórios varia conforme a credibilidade e a influência do embaixador. Outros, como o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Mattar Nasser, defendem a tese de que os papéis têm “tão pouca importância quanto os embaixadores”.

“O Senado mantém seu poder na política externa, mas o Pentágono e o sistema de segurança nacional ocupam um espaço cada vez maior nas decisões. Agora, o Pentágono destina verbas para a reconstrução das nações e faz operações de ajuda humanitária, que encobrem ações militares. Tem verbas do Pentágono até para cuidar de Aids na África”, explica Nasser.

Já o pesquisador Robert Naiman, do instituto americano Just Foreign Policy, acredita que o papel dos embaixadores continua a ser “importantíssimo” para dizer a Washington “qual a verdade, qual a mentira sobre o que está acontecendo no país em que estão”. Mas, constata o pesquisador, nem sempre os relatórios são levados em conta, como mostram os documentos do WikiLeaks: “Um mês depois do golpe de 2009, em Honduras, o embaixador dos EUA, que é bastante experiente, escreveu um telegrama avaliando que o golpe fora absolutamente ilegal. O que se viu foi que a política adotada pelos EUA diferiu dramaticamente do que o embaixador disse”, afirma. Outro telegrama destacado pelo pesquisador pela “flagrante discrepância” com a política oficial foi enviado em maio de 2009, pela embaixadora do Paquistão Anne W. Patterson. Nele, Ann afirma que a estratégia americana de aumentar a ajuda econômica não vai deter a expansão do Talibã. “Esse conselho jamais foi implementado”, diz Naiman.

Não-diplomatas

Para os especialistas, o papel do embaixador perde seu peso porque dos governos americanos costumam oferecer a embaixada como um “presente” aos aliados políticos. No caso dos Estados Unidos, quase sempre esses aliados são importantes fundraisers (ou levantadores de fundos) das campanhas presidenciais. Entre os 370 embaixadores nomeados por Bush em 2006, 133 eram não-diplomatas, com parco conhecimento dos países para onde foram enviados.

“Eles (o governo americano) preferem alguém que possa pegar um telefone e ligar direto para a Casa Branca, é o sistema deles”, observa um alto diplomata do Itamaraty.

O cientista político americano Riordan Roett, autor do livro The New Brazil, lançado pela Brookings Institution Press, critica a atuação dos não-diplomatas: “Eles não levam tão a sério seu papel como profissionais. Washington sabe que vão ficar por 2 anos na carreira e depois vão embora. O que ganham é uma espécie de honraria, serem chamados de 'embaixador' por toda a vida. Então, são do tipo que vivem em festas e casas noturnas”, diz.

“Quarenta por cento só estão ali porque contribuíram para levantar fundos – 400 mil dólares compram um tíquete de embaixador, e os indicados políticos defendem sempre o que é melhor para o governo que os colocou lá”, completa a ex-embaixadora Ann Wright, que renunciou à carreira depois da invasão do Iraque para não ter que defender a política externa de seu país. Para a ex-diplomata, o pior é que esses embaixadores servem ao governo e não ao Estado. “Muitos não conhecem bem o país e estão apenas para implementar o que forem mandados”.

Ann, que deixou a carreira diplomática depois de 16 anos de serviço, afirma que a maioria são homens de negócios. “Seu principal objetivo é expandir seus interesses econômicos em países específicos. Muitos voltam aos países depois, porque já conheceram todo mundo – é muito benéfico financeiramente para eles”.

O amigo americano

Clifford Sobel, empresário experiente no setor financeiro e pioneiro em telefonia por internet é fundraiser do partido republicano. Ele e a mulher, Barbara, figuram entre os 241 Bush Pioneers em 2000, e entre os 221 Bush Rangers em 2004 – ou seja, levantaram pelo menos 100 mil dólares para a campanha presidencial de 2000 (pioneer), e acima de 200 mil dólares para a campanha de 2004 (ranger). A Family Sobel Foundation, dirigida por Barbara, também doou 81 mil dólares aos candidatos republicanos em 2004. Como pioneer, Sobel recebeu a embaixada da Holanda, onde ficou até 2005. Na categoria ranger em 2004, o prêmio foi Brasil, que além de “paraíso tropical”, é o segundo maior parceiro comercial dos Estados Unidos.

Quando chegou por aqui, em agosto de 2006, não sabia quase nada do país – nem entendia o português. Seus primeiros despachos mostram desconfiança a respeito de um suposto “populismo” do governo brasileiro e à sua política externa. Em 30 de outubro de 2006, comenta com ceticismo um encontro com a equipe de Lula após a reeleição: “Nossos interlocutores estavam com o espírito elevado, generosos com o mundo, incluindo os Estados Unidos. Mas sem uma mudança no alto escalão do Ministério das Relações Exteriores, ficamos em dúvida sobre a viabilidade de uma guinada das prioridades sul-sul do primeiro mandato de Lula em direção aos Estados Unidos e ao mundo desenvolvido”.

Sobel nunca conseguiu se entender muito bem com o Itamaraty, mas manteve contatos próximos com o ministro da Defesa Nelson Jobim, que considerava “o homem mais confiável do governo”, e o general Armando Félix, do gabinete de Segurança Institucional. Talvez por isso, um de seus relatórios mais “precisos”, na opinião do ex-embaixador Ricúpero seja o que avalia o Plano Nacional de Defesa do governo: “Amigos meus, que trabalham na área da defesa, disseram-me que esse telegrama foi altamente apreciado, com análise de grande competência e opiniões sensatas, apesar de terem se irritado com bobagens como chamar o submarino nuclear de 'baleia branca'”.

Mesmo assim, Sobel saiu sem conseguir convencer o “amigo” Jobim a optar pelos caças americanos na disputa com franceses e suecos. Também falhou na missão de levar o Brasil à Associação de Livre Comércio das Américas (Alca), mas foi mais bem-sucedido quando deixou de lado os negócios governamentais e se concentrou em “estreitar as relações entre as empresas brasileiras e americanas”, como registrou um perfil sobre ele publicado na revista Exame, em fevereiro de 2008, com o título: “O amigo americano”.

Isso porque, na embaixada, ele acompanhou de perto os dois setores que lhe pareciam os mais promissores do país: etanol e telecomunicações. Empenhou-se para fechar um acordo entre a Santelisa Vale (fusão das usinas Santa Elisa e Vale do Rosário e de mais três empresas paulistas) e a americana Dow Chemical, comparecendo em caráter oficial à cerimônia de assinatura de um acordo comercial, em julho de 2007, que previa a produção de 350 mil toneladas de polietileno com tecnologia da companhia americana (o negócio foi interrompido na crise econômica de 2009). Também se interessou pelo processo que levou ao fechamento do maior negócio de telecomunicações realizado no país desde as privatizações: a compra da Brasil Telecom pela Oi por 4,85 bilhões de reais, arquitetada pela Angra Partners, que representava os fundos de pensão na Brasil Telecom, e que também comandou o processo de fusão da Santelisa Vale.

Com a vitória de Barack Obama – o candidato republicano à presidência novamente havia recebido recursos do casal Sobel – ele deixou a embaixada. Em julho de 2009, depois de muitas festas de despedida, ele saiu oficialmente do cargo, mas continuou a aparecer em companhia de sua elegante Barbara nas colunas sociais. Em agosto de 2010, por exemplo, ela organizou mais uma vez o concorrido jantar de sua Associação Américas Amigas, no hotel Hyatt, em São Paulo, para arrecadar fundos para ONG que fundou, com o objetivo de doar mamógrafos. No final do ano passado, instalaram-se definitivamente no país e, sem muito alarde, Sobel associou-se à Angra Partners, um negócio pra lá de promissor. A empresa se nega a confirmar.

Mas, procurada por CartaCapital, Barbara desfez as dúvidas neste simpático e-mail: “Decidimos continuar morando no Brasil por causa de nossos fortes vínculos com a cultura e o povo brasileiro. O embaixador Sobel se tornou sócio de um private equity group chamado Angra Partners e eu continuo à frente da Associação Américas Amigas. Escolhemos comprar um apartamento em São Paulo porque é o principal centro de negócios do país, onde estão as sedes da Angra Partners e da Américas Amigas. Estamos aqui para ficar!”.

Dilma, assaltante

O embaixador que antecedeu Sobel, o empresário republicano John Danilovich, também teve final feliz depois de servir no Brasil. Danilovich é aquele que ficou famoso por ter afirmado, em um telegrama a Washington em 22 de junho de 2005, que a atual presidenta Dilma Rousseff havia organizado três assaltos a banco e cofundado a Vanguarda Armada Revolucionária de Palmares – um erro profissional que se tornou gafe internacional depois de vazado pelo WikiLeaks.

Empresário da marinha mercante, Danilovich mantém uma relação de longa data com a família Bush. Em Londres, onde cursou mestrado e viveu durante muitos anos, organizou o apoio republicano para a eleição de Bush, o pai. Foi nomeado, durante seu governo, para o Comitê Diretor do Canal do Panamá, e dirigiu a comissão que tratou da devolução do canal, em 1999. No ano seguinte, Danilovich, importante doador da campanha de George W. Bush, foi nomeado para embaixada da Costa Rica. Em 2004, substituiu a diplomata Donna Hrinak na embaixada brasileira, onde ficou até o final de 2005.

Durante sua rápida atuação no Brasil, empenhou-se em costurar uma aliança anti-Chávez no continente, a ponto de tentar convencer o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, a ajudar a espionar o vizinho, propondo “um acordo de compartilhamento de inteligência”, como revelou um telegrama de 15 de março de 2005. Amorim, é claro, respondeu com irritação: “Não vemos Chávez como uma ameaça”.

Danilovich não desistiu. Ao Estado de S. Paulo afirmou que Chávez estava financiando a campanha Evo Morales, então na oposição, à presidência da Bolívia. Um telegrama mostra que ele voltou à carga em reunião com o General Jorge Armando Félix, no dia 4 de maio de 2005. Disse que Chávez estava “prejudicando os esforços do Brasil em ter um papel de liderança política e econômica na América do Sul”. Félix respondeu que divergia da posição do governo, mas preferia seguir a linha oficial.

Um ano depois da segunda eleição de Bush, Danilovich deixou o Brasil para assumir a liderança de uma corporação tão milionária quanto nebulosa: tornou-se CEO da Millenium Challenge Corporation, agência “independente”, ligada e financiada pelo governo americano. No período em que esteve à sua frente, entre novembro de 2005 e janeiro de 2009, ele gerenciou 6,3 bilhões de dólares de fundos aprovados pelo Congresso Americano. A missão oficial da MCC, segundo seu site, é fornecer assistência econômica a países pobres que se comprometem a seguir a cartilha neoliberal: governar com justiça, manter uma política fiscal responsável, incentivar os negócios.

Em 2008, por exemplo, o MCC bloqueou ajuda para projetos da Nicarágua em retaliação a suspeitas de fraude eleitoral por parte do governo sandinista de Daniel Ortega. Mas, em 2009, a corporação continuou a mandar ajuda para Honduras, mesmo depois do golpe que tirou Manuel Zelaya do poder, em 28 de junho.

Profissionais do ramo

Menos constantes nos telegramas vazados pelo WikiLeaks, os dois diplomatas de carreira do período Lula destacaram-se pelos bons resultados em prol das relações bilaterais. Thomas Shannon, o atual embaixador, escolhido por Obama, teve forte atuação em favor do Brasil para superar a crise provocada pela aproximação com o Irã, nos últimos dois anos. Já a diplomata Donna Hrinak, que ficou no cargo entre 2002 e 2004, teve papel fundamental para aproximar os dois países em um momento em que o governo Bush acompanhava com apreensão a chegada do operário “vermelho” à presidência do Brasil.

Filha de um metalúrgico de Pittsburgh, Hrinak havia sido vice-cônsul em São Paulo na década de 1980, e acompanhou com entusiasmo as greves do ABC paulista sob a ditadura militar. Quando voltou ao país, em abril de 2002, era fluente em português e tinha quase 30 anos de serviço diplomático – foi embaixadora na Bolívia, na Venezuela e na República Dominicana. Na recepção, um jornalista perguntou o que ela achava de Lula: “Não temos medo de Lula. Ele encarna o sonho americano”.

Durante a campanha presidencial, a embaixadora reuniu-se com Lula e com o homem escolhido pelo PT para azeitar as relações com os americanos: José Dirceu, conhecido de Hrinak desde a década de 80. Enquanto Dirceu visitava a Casa Branca e o Senado americano, em julho de 2002, levando uma cópia traduzida da “Carta ao Povo Brasileiro”, ela enviava a Washington telegramas garantindo que, se o PT vencesse, não haveria calote na dívida externa.

As vésperas do segundo turno, Hrinak e o então embaixador brasileiro em Washington, Rubens Barbosa – instruído pelo próprio Fernando Henrique Cardoso – empenharam-se em articular uma ligação telefônica de Bush, caso Lula fosse eleito. Bush ligaria caso Serra ganhasse, mas uma ligação para Lula seria um forte sinal de apoio, declararia depois a diplomata. A ligação veio poucas horas depois do resultado. “Parabéns pela grande vitória... O senhor conduziu uma campanha fantástica”, dizia Bush ao telefone.

O primeiro e único telegrama de 2002 na série vazada pelo WikiLeaks relata a primeira visita oficial de um representante do governo americano ao Brasil depois da eleição de Lula. O subsecretário de estado americano Otto Reich descreve o encontro com José Dirceu, Antonio Palocci e Aloizio Mercadante como “caloroso e produtivo” e conta que Lula, “animado, elegante e descansado”, disse, logo de cara, que queria ter uma boa relação com Bush: “Acho que dois políticos como nós vamos nos entender quando nos encontrarmos frente a frente”. No final do encontro, Reich foi taxativo: “Nós não temos medo do PT e da sua agenda social”.

Donna havia ganhado a parada. Em dezembro daquele ano, o presidente americano receberia Lula na Casa Branca, antes mesmo da posse.

O cientista político Riordan Roett não tem dúvidas da importância pessoal da ex-embaixadora para costurar as relações bilaterais. “Ela era muito popular entre os políticos de Brasília, tinha acesso ao governo e à oposição, falava português e entendia a dinâmica brasileira”.

Ao se aposentar em 2004, Donna saiu do país com um namorado brasileiro, algumas plásticas no rosto e o bordão de que “o Brasil não é antiamericano” – que Shannon teria de repetir à exaustão cinco anos depois.

Itamaraty, o adversário

Nomeado por Obama em 28 de maio de 2009, Thomas Shannon só chegou ao país em janeiro de 2010 devido à oposição a seu nome no Senado. O republicano Charles Grassley, do estado produtor de etanol Yowa, atrasou a confirmação por Shannon defender o fim da tarifa de US$ 0,54 sobre o etanol brasileiro exportado pelos EUA.

Outros dois senadores republicanos o vetaram por sua atuação durante o golpe de Honduras. Como subsecretário do Departamento de Estado para o Hemisfério Ocidental entre 2005 e 2009, Shannon amargurou a derrota da diplomacia aos interesses comerciais de seu país. Enquanto o governo americano começou deplorando o golpe, acabou por aceitá-lo sob pressão do empresariado ligado à elite hondurenha. A opinião do próprio embaixador, como vimos, acabou sendo totalmente desconsiderada. Quando Manuel Zelaya voltou ao país e se hospedou na embaixada brasileira, Shannon se reuniu com a ministra do exterior do governo de facto, Patricia Rodas, para pedir o envio de comida e água, como registra um telegrama de 22 de setembro de 2009.

Diplomata de excelente reputação e experiente – atuou nas embaixadas da Venezuela, África do Sul, Camarões, Gabão, Guatemala e São Tomé e Príncipe, além de representar os Estados Unidos na OEA –, Thomas Shannon chegou ao país em plena crise provocada pela aproximação do governo Lula com o Irã, defendida pelo governo como parte de sua estratégia sul-sul e de defesa da equidade dos países diante do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares. Para complicar, Lula estava de visita marcada para o Irã em maio, e o presidente Mahmoud Ahmadinejad estivera no país quarenta dias antes da chegada do novo embaixador.

Segundo o pesquisador Riordan Roett, Brasil e Estados Unidos haviam chegado a um impasse por conta de um “desentendimento típico das relações diplomáticas”, causado por uma carta sobre o assunto enviada por Obama a Lula. O pesquisador, que atribui a informação a um ex-ministro de relações exteriores brasileiro, explica: “Enquanto o Brasil pensou que era um sinal positivo (para continuar as negociações com o Irã), o pessoal de Washington a via como uma advertência para que o Brasil fosse cuidadoso”. Segundo ele, “esse mal-entendido levou a uma série de erros que culminaram no conflito sobre as sanções na ONU”.

No dia 8 de janeiro de 2010, algumas horas depois de desembarcar no país, Shannon foi procurado por Celso Amorim, que quebrou o protocolo, e iniciou a conversa, lamentando a demora na aprovação de seu nome: os dois países haviam “perdido um tempo precioso”, disse-lhe o ministro brasileiro.

Os telegramas deixam transparecer o entusiasmo da equipe do Itamaraty com a vinda de Shannon e o empenho de Amorim para explicar melhor a posição brasileira: “O Brasil pode contribuir e ser uma voz positiva em temas sobre o Oriente Médio e o Irã”, disse Amorim, acrescentando que, durante a visita do presidente Mahmoud Ahmadinejad, o Brasil manifestou sua preocupação em relação aos direitos humanos no Irã. Por fim, Amorim pediu a Shannon calma nas negociações, pois mais pressão poderia gerar resistência interna. “Está claro que o ministro do exterior está ansioso para começar a nova fase de relações entre o Brasil e os EUA. Da perspectiva brasileira, o diálogo sobre temas não só regionais, como globais, será importante”, comentou Shannon no telegrama.

O recado parece ter sido compreendido. No auge da crise, o embaixador viajou a Washington para acalmar o governo americano, como conta o professor Matias Spektor. “O fato de Shannon ter legitimidade como interlocutor foi decisivo para que isso não se tornasse crítico. E continua sendo importante agora, em que o Brasil emerge como potência internacional, e ainda não está claro como isto está sendo recebido em Washington, há uma série de interesses que sentem essa ascensão como um risco”, diz Specktor.

Shannon tem atuado no sentido que o Brasil deseja: “A partir de agora, os Estados Unidos precisam tratar o Brasil de igual para igual”, costuma afirmar.

O embaixador mostra-se, inclusive, mais sofisticado nas análises sobre a eleição presidencial de 2010 do que outros integrantes do corpo consular. Enquanto Shannon tenta relatar os fatos com sobriedade, funcionários da embaixada enviavam despachos a Washington que nem o mais fanático dos eleitores tucanos seria capaz de acreditar. A possibilidade de Aécio Neves aceitar o posto de vice na chapa de José Serra, descartada pelo senador mineiro no fim de 2009, ainda era dada como certa nos telegramas do início do ano seguinte. Sem falar no balão de ensaio de uma dobradinha Serra-Marina Silva, sustentado com entusiasmo em despachos durante o processo eleitoral.

Shannon tem se esforçado em prol das relações bilaterais, mas não tem sido fácil. O governo Obama deixou claro que não vai apoiar demandas do Brasil, como o assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, nem acabar com a tarifa sobre a importação do etanol, outra reivindicação importante de Brasília. Além disso, alguns telegramas da embaixada revelam que nos últimos anos os EUA fizeram um verdadeiro boicote às pretensões brasileiras de ter um programa espacial e nuclear independente.

Talvez seja por isso que o vazamento do WikiLeaks tenha dado tantas dores de cabeça a Shannon. Segundo o embaixador, seu trabalho foi afetado pela quebra da “garantia de confidencialidade” que permitiria conduzir “discussões francas” e o “diálogo honesto” entre os países.

Valeu a pena?

Para alguns especialistas, porém, a publicidade dos telegramas pode, surpreendentemente, favorecer as relações bilaterais. “O benefício foi maior do que o dano”, diz o ex-embaixador Rubens Ricupero. “Muita coisa de que se suspeitava foi confirmada, como a existência de um antiamericanismo gratuito em uma parte do governo brasileiro, enquanto outros setores dentro do próprio governo se mostram mais abertos. Ou seja, não é um bloco fechado, há espaço para uma mudança psicológica que pode se refletir em uma relação melhor entre os dois países, com menos preconceitos”, afirma Ricupero.

“Para quem está lá nos Estados Unidos, saber que existem essas diferentes visões entre Ministério da Defesa e Itamaraty ou entre Itamaraty e Planalto serve como filtro para as informações que recebem do Brasil”, completa o professor Matias Specktor.

Parece ser nisso que os governos dos dois países estão apostando. Enquanto o governo Lula minimizou a importância dos documentos e a sucessora Dilma sequer comentou as revelações mais recentes, o Itamaraty se esmera em preparar a visita do presidente Obama ao Brasil, marcada para os dias 19 e 20 de março, quando ele fará um discurso histórico. “Pelo que se sabe até agora, Obama vai dizer em alto e bom som que os Estados Unidos consideram positivo o fato de um país como o Brasil, uma grande democracia, estar emergindo como potência internacional – o que tem grande peso pois contraria interesses de setores americanos”, afirma Specktor.

Será a segunda visita do alto escalão americano neste ano – Hillary Clinton veio especialmente à posse de Dilma – algo inédito. Resta saber como a relação vai se equilibrar nessa corda bamba entre os conflitos de interesse e a vontade de aproximação. Pena que dessa vez o grande público não terá acesso aos bastidores da negociação – como permitiu o vazamento do WikiLeaks.


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